A Empatia e o Vínculo nas Relações Familiares

 Os espíritos que se encarnam numa mesma família, sobretudo entre parentes próximos, são, o mais frequentemente, Espíritos simpáticos, unidos por relacionamentos anteriores, que se traduzem por sua afeição durante a vida terrestre; mas pode ocorrer também que esses Espíritos igualmente anteriores, que se traduzem da mesma forma por seu antagonismo sobre a Terra, para lhes servir de prova. Os verdadeiros laços de família não são, pois os da consanguinidade, mas os da simpatia e da comunhão de pensamentos que unem os Espíritos antes, durante e após a sua encarnação. ” (ESSE cap. XIV)

 Em nosso mundo atual a correria diária nos impulsiona a vivermos de forma bastante ansiosa, muitas vezes, isolados e reféns de preocupações e compromissos exaustivos, auto exigências e limitação de tempo para nos observar. Todos precisam sobreviver e lutar por um espaço na sociedade e uma vida melhor. Estes ingredientes fazem com que nossos relacionamentos familiares adquiram características um tanto superficiais com a falta de empatia e fortalecimento dos vínculos afetivos.

A família é o lugar por excelência onde seremos convidados a colaborar praticando a lei de amor de forma mais intensa e desafiadora. Somos convidados a aprender a exercitar o amor na convivência conjugal, maternal, paternal, filial, fraternal, etc.

Todos somos desafiados, através do exercício diário que a convivência nos possibilita, a nos tornar pessoas mais empáticas e consequentemente estreitar nossos vínculos.

No papel de pais vivenciamos o amor incondicional e a doação mais pura na relação afetiva com os filhos. No papel de filhos vivenciamos, primeiramente durante a Infância, a idealização de nossos pais. Na Adolescência, passamos aos enfrentamentos, questionamentos e negação diante de suas normas e regras, para na Maturidade da vida adulta, compreendê-los como seres humanos falíveis, limitados e vulneráveis, assim como nós, passando a respeitá-los e a amá-los muito mais.

A finalidade principal da família é aprendermos a nos amar como irmãos, nos libertando do egoísmo, sentimento ainda extremamente arraigado em nossos corações.

Uma família perfeita num planeta de provas e expiações é impossível, porém é possível nos aperfeiçoarmos sempre.

Para Joanna de Ângelis: “a família é, antes de tudo, um laboratório de experiências reparadoras, no qual a felicidade e a dor se alternam, programando a paz futura”.

Emmanuel, no livro Leis de Amor nos relata sobre a função essencial do lar e família (cp. IV.6): “no caminho familiar, purificam-se instintos e renovam-se decisões. Nele encontramos estímulos ao trabalho e às tentações que nos comprovam as qualidades adquiridas, as alegrias que nos alentam e as dores que nos corrigem”.

Concluindo, ressaltamos que “o amor é o alicerce mais vigoroso para a construção de uma personalidade sadia, por ser gerador de um comportamento equilibrado”, já dizia Joanna de Ângelis. Com a benção da reencarnação, nos é possibilitado a oportunidade de exercitarmos o amor frente aqueles que nos inspiram genuinamente esse sentimento. Assim também, tal exercício se faz necessário, aos carentes de nosso amor, hoje familiares que nos conflitamos, com os quais temos débitos passados.

A empatia nos torna sensíveis a dores, fragilidades e limitações de nossos companheiros de jornada e é conquistada a partir da nossa condição de nos reconhecermos, humildemente, também vulneráveis, limitados e em eterno aprendizado e processo evolutivo.

A finalidade principal da família é aprendermos a nos amar como irmãos, nos libertando do egoísmo, sentimento ainda extremamente arraigado em nossos corações.

Que sigamos, perseverando em nosso aprimoramento espiritual, mesmo frente aos desafios mais intensos dentro de nossas famílias: amando e perdoando.

Que aproveitemos ao máximo a maior prova de Amor que Deus nos concede: a Vida!! E toda a nova oportunidade que ela encerra frente às relações com nosso próximo, mais próximo: nossa família!!

                                          Elizabeth Schuck – psicóloga clínica e psicoterapeuta de família

  • Bibliografia:
  • Allan Kardec, Evangelho segundo Espiritismo, Editora.Boa Nova
  • Alírio de Cerqueira Filho. Saúde das Relações Familiares, Editora EBM,S.Paulo,2007
  • Cristina Canovas de Moura. À família com afeto, Editora Letra de Luz, Porto Alegre,2012
  • Divaldo Franco, Constelação Familiar, Ed. Leal, Salvador,2002
  • Walter Barcelos, Educadores do Coração, Editora. União Espírita Mineira, BH,2007

 

 

 

Se começarmos a matar bebês, o que nos impedirá de matar velhos e doentes?

gravidez2-625x415Se não existe nenhum argumento, nenhum preconceito, nenhum elemento de sacralidade na vida humana, nenhuma regra de natureza inviolável, nenhum princípio fundado na dignidade, enfim, nenhuma verdade moral capaz de nos impedir de matar nossos próprios filhos, o que poderá nos impedir de assassinar os nossos idosos, deficientes e doentes?

O aborto é o primeiro passo na direção da consolidação da cultura da morte. Mais alguns passos nessa direção e estaremos eliminando nossos velhos e doentes com a mesma desenvoltura de quem coloca o lixo para fora de casa.

Estou exagerando? Pense nos exemplos que darei neste texto.

A cultura da morte já predomina em países como Holanda e Bélgica, onde idosos e doentes estão cada vez mais na mira de burocratas-assassinos-bem-intencionados que fazem do Estado um instrumento moderno de “correção” dos “erros da natureza” ou “erros de Deus”.

Os defensores da cultura da morte sempre baseiam sua agenda no mais tosco utilitarismo (vide Peter Singer) e apresentam suas propostas como se, generosamente, assumissem o ponto de vista dos que são doentes demais para continuar existindo.

Exterminando os doentes

Na Bélgica, por exemplo, foi institucionalizada a eutanásia sem limite de idade. Ora, “eutanásia sem limite de idade” é simplesmente um nome técnico para infanticídio.

A Bélgica legalizou o direito à eutanásia para adultos em 2002. Em 2014 o Parlamento belga achou por bem ampliar o “direito” à eutanásia para crianças e adolescentes.

Na época 160 pediatras belgas se mobilizaram contra a lei, divulgando uma carta aberta ao Parlamento no qual questionaram, entre outras coisas, como se poderia esperar maturidade de crianças doentes diante da dilema de acabar ou não com a própria vida.

Uma reportagem da época revelou:

Um ponto bastante debatido no país foi como definir se a criança tem discernimento ou não. O texto [da lei] determina uma avaliação do médico responsável e também de um psiquiatra infantil para atestar a maturidade do paciente.

O que os belgas fizeram foi dizer a crianças confusas e em sofrimento “veja, você pode acabar com esse sofrimento quando quiser”. A pergunta que fica é: a eutanásia infantil foi uma demanda das crianças gravemente doentes ou de seus pais?

Um trecho da mesma reportagem dá uma pista:

A enfermeira belga ouvida pela Reuters, Sonja Develter, que já cuidou de cerca de 200 crianças em fase terminal, se opôs à lei. ‘Na minha experiência, eu nunca tive uma criança pedindo para acabar com sua vida’, disse.

Os pedidos de eutanásia muitas vezes vieram de pais que estavam emocionalmente exaustos depois de verem seus filhos lutarem por tanto tempo.

É óbvio que pais aflitos por não poderem mais viver como antes, talvez saudosos da vida social de outrora, projetaram seu egoísmo nos filhos e o reinterpretaram como uma “decisão soberana” de suas crianças ainda imaturas, confusas e em sofrimento.

Exterminando os velhos

Bélgica e Holanda estão na vanguarda da cultura da morte no mundo. Ambos os países começaram com a legalização do aborto e hoje já discutem as propostas mais bizarras que se pode imaginar.

Na Holanda a eutanásia é legal para crianças com mais de 12 anos caso elas tenham “o consentimento de seus pais”. E, como já especulamos acima, a eutanásia infantil interessa muito mais aos pais que cuidam de crianças doentes do que elas mesmas.

Os holandeses deram um passo além e permitiram que familiares de idosos severamente comprometidos pudessem solicitar a eutanásia em nome deles. Uma notícia bizarra da época da aprovação das leis holandesas narrou uma fuga de idosos da Holanda:

A eutanásia não desejada virou o pesadelo dos holandeses, informou a rádio oficial alemã Deustche Welle […] O novo asilo na cidade alemã de Bocholt, perto da fronteira com a Holanda, virou refúgio de muitos holandeses temerosos de que a própria família autorize a antecipação de sua morte.

Segundo a Universidade de Göttingen, 41% dos sete mil casos de eutanásia praticados na Holanda foram a pedido da família, que queria liberar-se do “incômodo”. 14% das vítimas estavam totalmente conscientes na hora em que foram liquidadas.

De acordo com Eugen Brysch, presidente do Movimento Hospice, a lei deixa os médicos de mãos livres para praticá-la de acordo com a sua própria interpretação do texto legal.

Brysche luta contra a legalização da eutanásia na Alemanha, onde ainda existe um forte tabu que dificulta a agenda da morte, afinal de contas, os nazistas praticaram eutanásia em larga escala contra deficientes físicos e mentais, judeus, ciganos e outras minorias.

“American Eugenics Society” foi um grupo que fez campanha aberta pela eugenia antes da II Guerra nos EUA. Os eugenistas estão entre os fundadores da Planned Parenthood, a famosa organização abortista americana.
“American Eugenics Society” foi um grupo que fez campanha pela eugenia antes da II Guerra nos EUA. Os eugenistas estão entre os fundadores da Planned Parenthood, a famosa organização abortista americana.

O problema do precedente

Depois de legalizar o aborto, a eutanásia e o infanticídio, a Bélgica já não tinha mais como impedir qualquer tipo de precedente, por mais bizarro ou absurdo que fosse.

Uma reportagem de junho deste ano narrou o caso de um jovem belga de 16 anos que pediu autorização para praticar a eutanásia “por não se aceitar gay”:

Sébastien diz ter feito terapia durante 17 anos, além de tomar remédios, e acreditar não ter outra opção. Ele afirma sentir atração por homens jovens e adolescentes e ter traumas de infância.

Por mais absurda que pareça a justificativa, Sébastien pode conquistar seu direito em breve, afinal de contas, “a lei belga estabelece que, para ter direito à eutanásia, os pacientes precisam demonstrar constante e insuportável sofrimento psicológico ou físico” .

É claro que, movidos por compaixão e empatia para com doentes terminais ou vítimas de sofrimento crônico, podemos manifestar simpatia pela descriminalização da eutanásia para adultos, por exemplo. Eu mesmo já tive muita simpatia pela proposta.

Mas, nestes casos, devemos fazer uma simples pergunta: o que vem a seguir?

Pois um fato escapa da nossa atenção quando nos envolvemos em dilemas morais que podem ser resolvidos com mudanças profundas: não existe decisão política isolada e cuja repercussão se encerra em seu próprio tópico.

Na esfera jurídica cada decisão gera uma jurisprudência. Na esfera política, cada decisão produz uma tendência. A eutanásia para adultos na Bélgica, por exemplo, abriu as portas para a eutanásia infantil. Ninguém sabe quais serão os próximos precedentes.

Cada decisão abre precedente para outra decisão. É como se estivéssemos em um labirinto sem fim no qual cada caminho leva a outro caminho desconhecido, e assim por diante.

Todas as decisões em favor da cultura da morte foram baseadas em uma versão moderna da postura filosófica conhecida como utilitarismo, advogada nos nossos dias por Peter Singer. Grosso modo, os utilitaristas defendem que devemos sempre buscar o prazer  e evitar o sofrimento, o que é a negação da própria essência da  vida.

Peter Singer é um dos líderes do movimento moderno de defesa dos direitos animais, e seu livro “Libertação Animal” é a obra máxima do movimento.  Singer defende o fim de uso de animais em pesquisas médicas e, ao mesmo tempo, é estridente defensor da legalização do aborto.

Tudo isso usando critérios utilitaristas.

São portadores dessa esquizofrenia moral que nos pedem para abrir a porta do aborto, sabendo que em seguida abriremos outras portas, e chegaremos ao mundo bizarro sem sofrimento com o qual eles sonham.

Em algum momento a eutanásia autorizada pelo paciente abre as portas para a eutanásia ativa, aplicada por médicos convictos de que sabem o que é melhor para o paciente.

Com o precedente em favor do aborto, o Brasil já deu o primeiro passo na direção da desvalorização da vida e da consolidação da cultura da morte. Se começarmos a matar bebês, o que nos impedirá de matar velhos e doentes?

Nada, absolutamente nada.

Publicado em 2 de dezembro de 2016 por Thiago Cortes

STF e seus equívocos

gravidez2-625x415A AME-Brasil recebeu com profunda surpresa a decisão tomada dia 29/11/2016 pela 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) ao não considerar crime a prática do aborto durante o primeiro trimestre de gravidez  no julgamento de uma clínica de aborto, em Duque de Caxias (RJ). Entendemos que essa decisão gera uma jurisprudência que favorecerá o embasamento das decisões judiciais de outras instâncias por todo o Brasil, abrindo assim um precedente para descriminalizar o aborto até o terceiro mês de gravidez.

Lamentamos profundamente a posição tomada pelo STF que além de desconsiderar toda a questão médica científica, assumiu um papel de legislador, ferindo a própria Constituição Federal que deveria defender, agindo de forma prepotente e desrespeitosa em relação à população brasileira, que é na sua grande maioria contrária à prática do aborto.

Nos assustam tais atitudes do Judiciário neste momento em que as instituições políticas, como o Congresso e o Senado, encontram-se em crise. O STF  deveria ser a base de sustentação na defesa do direito primordial e mais básico do ser humano que é a vida.

As justificavas utilizadas para defender o  aborto nessas condições baseadas no argumento que maioria dos “países democráticos” e “desenvolvidos” assim o fazem é demonstrar falta de autenticidade, autonomia, respeito próprio e jogar fora todos os conhecimentos científicos da embriologia médica.

Cabe ressaltar que o Brasil não é um país desenvolvido. A nossa cultura não é de um país desenvolvido, a nossa educação e saúde pública não é de um país desenvolvido. Não passa de um pensamento mágico e pueril achar que copiando algo de fora possa ser “bom” para nós ou nos transforme em países “desenvolvidos” quando nos faltam os elementos mais básicos e essenciais para atingirmos essa realidade. Querer copiar coisas de fora sem estar atento e sem atender as reais necessidades internas também não é uma prática de países desenvolvidos.

Esse argumento não serve como embasamento para decisões tão sérias que exigem clareza e conhecimento de causa.

Sabe-se que no Brasil a mortalidade materna e infantil caíram drasticamente nos últimos anos graças a vários fatores como pré-natal, saneamento básico, aleitamento materno, melhor distribuição de renda e programa de saúde da família.

O aborto nunca deverá ser usado como fonte de enriquecimento para clínicas abortistas que em nada atendem as necessidades da população carente e sua utilização como instrumento para controle de natalidade é simplesmente abominável.

O que precisamos é de educação e melhores condições sociais com profundo respeito a vida.

O que caracteriza o valor de uma sociedade é sua capacidade de proteger o mais fracos. E a criança no útero materno é o elo mais frágil da sociedade exigindo braços fortes e sensíveis que a protejam.

Esperamos que no futuro esse argumento da “maioria” não se sobreponha as conquistas do pensamento científico, dos valores éticos e no respeito ao pensamento da maioria da população brasileira.

Nesse momento nos envergonhamos profundamente dos homens públicos que deveriam ser o esteio e o exemplo de uma sociedade justa e solidária.

AME-Brasil

1º de Outubro – Dia do Idoso

O Dia do Idoso é comemorado no Brasil em 1º de outubro. Essa data faz referência ao dia da aprovação do Estatuto do Idoso, em 2003.

 

1o-de-outubro-dia-internacional-do-idosoNo 1º dia do mês de outubro celebra-se o Dia do Idoso no Brasil. Até 2006, o Dia do Idoso era comemorado no dia 27 de setembro. Isso porque, em 1999, a Comissão pela Educação, do Senado Federal, havia instituído tal data para a reflexão sobre a situação do idoso na sociedade, ou seja, a realidade do idoso em questões ligadas à saúde, convívio familiar, abandono, sexualidade, aposentadoria etc.

No dia 1º de outubro de 2003, porém, foi aprovada a Lei nº 10.741, que tornou vigente o Estatuto do Idoso. Pelo fato de o Estatuto ter sido instituído em 1º de Outubro, em 2006 foi criada uma outra lei (a Lei nº 11.433, de 28 de Dezembro de 2006) para transferir o Dia do Idoso para 1º de outubro. Vale salientar que desde 1994, com a Lei nº 8.842, o Estado brasileiro já havia inserido a figura do idoso no âmbito da política nacional, dado que essa lei criava o Conselho Nacional do Idoso.

O fato é que, com a criação do Estatuto do Idoso, em 2003, o Brasil começou a incorporar à sua jurisprudência resoluções de organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Sabe-se que, em 1982, a ONU elaborou, em Viena, na Áustria, a primeira Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento. Dessa Assembleia, foi elaborado um Plano de Ação Internacional sobre o Envelhecimento que tinha 62 pontos, os quais passaram a orientar as reflexões, legislações e ações posteriores a respeito do idoso.

É sabido, também, que, na Assembleia Geral de 1991, a ONU aprovou a Resolução 46/91, que trata dos direitos dos idosos. Os princípios dessa resolução norteiam as discussões contemporâneas sobre a situação do idoso. Entre esses princípios, estão os da “Autorrealização” e da “dignidade”, cujos pontos são:

Autorrealização:

  • Aproveitar as oportunidades para o total desenvolvimento das suas potencialidades;
  • Ter acesso aos recursos educacionais, culturais, espirituais e de lazer da sociedade;

Dignidade:

  • Poder viver com dignidade e segurança, sem ser objeto de exploração e maus-tratos físico ou mentais;
  • Ser tratado com justiça, independentemente da idade, sexo, raça, etnia, deficiências, condições econômicas ou outros fatores.

Além desses princípios, a ONU ainda deu destaque às questões da assistência aos idosos e de sua integração e participação na sociedade, bem como da independência que lhes é inerente e que deve ser-lhes garantida em direitos como: oportunidade de trabalho, lazer, determinar em que momento deve afastar-se do mercado de trabalho, poder viver em ambientes seguros etc. O dia 1º de outubro, portanto, é reservado para pensar sobre todas essas questões fundamentais a respeito do idoso.

Quando Nos Deparamos Com O Diagnóstico: Mal De Alzheimer

alzheimerO Mal de Alzheimer é uma doença cerebral degenerativa primária de etiologia desconhecida com aspectos neuropatológicos e neuroquímicos característicos. É um transtorno insidioso com desenvolvimento lento mas continuo por vários anos. É caracterizado pela perda progressiva das funções intelectuais. Inicialmente há uma perda de memória e posteriormente outras funções são acometidas.

Atualmente os medicamentos disponíveis auxiliam para que o progresso e a evolução da doença sejam mais lentos. Além das funções cognitivas afetadas, podem ocorrer alterações no comportamento do paciente (apatia, agitação, irritabilidade, agressividade).

Para o paciente, no início da doença, o sofrimento é bastante intenso. Suas crises temporárias de perda de memória, confusão mental e desorientação espaço-temporal o deixam bastante angustiado, inseguro, e com muito medo. Tanto o paciente como o familiar se deparam com “perdas diárias” tornando esse desafio uma prova bastante difícil de ser vivenciada.

A importância de todos envolvidos na doença Mal de Alzheimer serem assistidos por uma equipe multidisciplinar é vital para a manutenção de uma estrutura psicológica bem mais equilibrada diante ao diagnóstico.

O paciente necessita de muita entrega e dedicação do cuidador e/ou familiar, onde a paciência, compaixão e lucidez para o manejo com ele é extremamente fundamental. Acompanhamentos terapêuticos e esclarecimentos sobre a doença são extremamente necessários para que haja uma condução adequada, principalmente, para aqueles que se responsabilizam pelos cuidados do doente. A energia envolvida é bastante intensa pois a convivência é muito sobrecarregada e exaustiva.

Outro aspecto de suma importância é o entendimento e apoio espiritual. A terapêutica complementar espírita com os passes magnéticos, água fluidificada, evangelho no lar e tratamentos desobssessivos (quando necessários) são essenciais como suporte para todos os envolvidos neste diagnóstico.

Sabedores de que “nada acontece por acaso” e que as doenças vivenciadas já são nossa oportunidade de cura espiritual cultivemos a fé na Espiritualidade Maior que nos alcançará o suporte para vivenciarmos esta prova.

Não esqueçamos: quem é… e quem foi…a pessoa que hoje se encontra com Mal de Alzheimer.

O Amor é a maior força a nos sustentar e a auxiliar no conforto e no alívio dos sintomas das dores da alma. Tenhamos, sempre presente, que oportunizar para o paciente momentos de alegria, conforto, carinho e prazer, mesmo que serão esquecidos nos minutos seguintes abastecerá imensamente o momento presente de nosso ente querido. E isso ficará para sempre na sua memória espiritual.

O cuidador e familiar com o avanço da doença no paciente necessitará de muito apoio e reabastecimento psicológico e espiritual. Esse panorama evidencia que tanto paciente como familiar e/ou cuidador estão entrelaçados numa prova compartilhada e que exigirá muita compaixão, indulgência, perdão, paciência, resignação e amor dos envolvidos.

Lembrando o Evangelho segundo o Espiritismo no capítulo 5: Bem-aventurados os aflitos porque serão consolados, Jesus indica, ao mesmo tempo, a compensação que espera aqueles que sofrem, e a resignação que faz abençoar o sofrimento como prelúdio da cura.

Não esquecendo que, para aqueles que estiverem em sofrimento, sempre haverá um consolo, basta não perder a fé e a compreensão que a nossa passagem durante cada encarnação tem o propósito da evolução espiritual.

Nos momentos de muita aflição nos reportemos ao Mestre Jesus que nos diz com todo o seu Amor e serenidade:

“Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e que estais sobrecarregados e eu vos aliviarei. -Tomai meu jugo sobre vós, e aprendei de mim que sou brando e humilde de coração, e encontrareis o repouso de vossas almas; porque meu jugo é suave e meu fardo é leve. ” (São Mateus11:28-30)

Elizabeth Schuck – psicóloga clínica e psicotepareuta de familia

Posição da AME-Brasil sobre o zika vírus e o aborto

Os que defendem a legalização do aborto encontraram na associação do aumento da microcefalia com o surto de zika vírus uma oportunidade para retomar a discussão da liberação do aborto no Brasil.
Recentemente foi noticiado que grupo liderado pela Débora Diniz, do instituto de bioética Anis, prepara uma ação no STF para a liberação do aborto em casos de microcefalia. É o mesmo grupo que propôs a ação para interrupção da gravidez de anencéfalos, acatada pelo STF em 2012.
A bióloga e feminista Ilana Löwy, numa entrevista para a Revista ÉPOCA, vê no surto de zika vírus uma oportunidade para se debater o direito de decisão da mulher de ter ou não o bebê, como aconteceu com a epidemia de rubéola no Reino Unido. Interessante é que a Rubéola hoje em dia é uma doença totalmente controlável e passível de prevenção através da vacinação, deixando de ser um risco epidêmico, usado como justificativa para a liberação do aborto na Europa.
Os argumentos utilizados se baseiam na liberdade da mulher poder escolher o que é melhor para si, esquecendo que existe uma vida a qual se está negando o primeiro e mais fundamental dos direitos humanos, o direito à vida.
Cabe ressaltar que os fundamentos utilizados para liberar o aborto dos fetos anencéfalos não se aplicam nesses casos.
O diagnóstico da microcefalia é tardio, em torno da 28ª semana, diferentemente da anencefalia, que é feito a partir da 12ª semana de gestação.
As lesões da microcefalia geralmente aparecem na ultrassonografia depois da 24ª e não são incompatíveis com vida, como nos casos de anencefalia.
Além disso, o diagnóstico ecográfico de lesão neurológica não é 100% seguro, já que depende da análise de um profissional passível de equívocos. Existem inúmeros relatos de erros em fetos com diagnóstico de mal-formações neurológicas e que nasceram perfeitamente normais.
No entanto, os que argumentam em favor do aborto querem transformar o diagnóstico de microcefalia em atestado de morte para todas as crianças das mães que contraíram o zika vírus e que optarem pela interrupção da gravidez, mesmo com possibilidades de nascerem normais ou com poucas sequelas neurológicas.
Com o avanço da medicina fetal e da genética médica, hoje é possível a detecção, ainda no útero, de várias anomalias fetais. Diversas técnicas como ultrassom morfológico, ultrassom de terceira dimensão, a biópsia de vilos coriais, a amniocentese, a cordocentese, o desenvolvimento da técnica citogenética molecular permitem o diagnóstico intrauterino de várias doenças. O diagnóstico permite iniciar o tratamento antes do nascimento, como cirurgias intrauterinas para correções de más-formações, assim como a preparação psicológica dos pais para o enfrentamento das graves anomalias.
Querer selecionar apenas as crianças saudáveis com direito à vida é retomar a prática da eugenia feita na Grécia antiga e pelo nazismo, abrindo um precedente para a liberação do aborto em outros casos de microcefalia como as causadas por hipóxia neonatal, desnutrição grave na gestação, fenilcetonúria materna, rubéola congênita na gravidez, toxoplasmose congênita na gravidez, infecção congênita por citomegalovírus ou em doenças genéticas como Síndrome de Down, Síndrome de Cornelia de Lange, Síndrome Cri du Chat, Síndrome de Rubinstein – Taybi, Síndrome de Seckel, Síndrome de Smith-Lemli–Opitz e Síndrome de Edwards.
Nesses casos pessoas como Ana Carolina Dias Cáceres, moradora de Campo Grande (MS), hoje com 24 anos e formada em jornalismo, e tantas outras crianças em situações parecidas, não teriam direito à vida.
Ao saber da iniciativa de alguns em defender o aborto de fetos com microcefalia, Ana Cáceres veio a público dar seu depoimento a BBC do Brasil em defesa dos portadores de microcefalia.
Nos casos microcefalia não se pode falar na opção de abortamento, pois não se trata de patologia letal que inviabilize a vida extrauterina. Embora as limitações que possam surgir, a expectativa de vida das crianças com microcefalia não são diferentes das outras crianças, exigindo, no entanto, estimulação e cuidados especiais para melhorar a sua qualidade de vida.
A discussão do aborto em casos de microcefalia retrata bem o momento pós-moderno em que vivemos, o que Bauman, um dos maiores pensadores da atualidade, chama de modernidade líquida. Na modernidade líquida os indivíduos não possuem mais padrões de referência, nem códigos sociais e culturais que lhes possibilitem, ao mesmo tempo, construir sua vida e se inserir dentro das condições de classe e cidadão.
A modernidade líquida trouxe descentramento do homem, do sujeito, produzindo identidades híbridas, locais e globais, efêmeras sobre tudo. É a cultura do efêmero, da destruição criativa, “tudo que é sólido desmancha no ar” na imagem trazida por Berman.
Para a maioria dos autores, a pós-modernidade é marcada como a época das incertezas, das fragmentações, do narcisismo, da troca de valores, do vazio, do niilismo, da deserção, do imediatismo, da efemeridade, do hedonismo, da substituição da ética pela estética, da apatia, do consumo de sensações e do fim dos grandes discursos.
A educação recebida dos pais e das escolas, os valores morais que orientam as boas relações sociais, o fortalecimento da família e a busca do bem comum está perdendo espaço para novas formas de comportamento regidas pelas leis do mercado, do consumo e do espetáculo.
Existe uma crise de valores com perda de referenciais importantes em detrimento de uma vida superficial e de um discurso liberal.
Na sociedade pós-moderna predomina o ter acima do ser, o prazer pelo prazer, o prazer acima de tudo, a permissividade que justifica que tudo é bom desde que me sinta bem, o relativismo no qual não há nada absoluto, nada totalmente bom ou mau e as verdades são oscilantes, o consumismo, se vive para consumir, e o niilismo caracterizado pela subjetividade, a paixão pelo nada, numa indiferença assustadora.
Renata Araújo descreve muito bem o sujeito pós-moderno:

“A pós-modernidade nos apresenta um sujeito imediatista, fragmentado, narcisista, desiludido, ansioso, hedonista, deprimido, embora também informatizado, buscando independência, autonomia e defesa de seus direitos. Mas, a supervalorização e autonomia geram um individualismo, um egocentrismo, uma ênfase na subjetividade, sendo o outro apenas para a consecução de seus objetivos pessoais.” (ARAÚJO, p. 1 e 2)

Vive-se numa época de grande competitividade e de pouca solidariedade. Em nome dessa nova ideologia, os indivíduos se permitem agir passando por cima de valores fundamentais.
A coisificação da vida e o predomínio dos interesses pessoais em detrimento do coletivo são bem característicos dessa fase em que vivemos.
Entretanto, aprendemos com a genética que a diversidade é a nossa maior riqueza coletiva. E o feto anômalo, mesmo o portador de grave deficiência, como é o caso da microcefalia, faz parte dessa diversidade. Deve ser, portanto, preservado e respeitado.
Necessário se faz proteger também a gestante, dando a ela apoio em sua gravidez e proporcionando tratamento ao seu futuro filho.
Reconhecemos que a mulher que gera um feto deficiente precisa de ajuda psicológica por longo tempo; constatamos, porém, que, na prática, esse direito não lhe é assegurado.
O aborto provocado é um procedimento traumático com repercussões gravíssimas para a saúde mental da mulher e que geralmente aparecem tardiamente.
O aborto produz um luto incluso devido à negação da ocorrência de uma morte real, mas esse aspecto é totalmente desconsiderado.
As mulheres sofrem uma perda e suas necessidades emocionais são relegadas ou escondidas. Elas não conseguem vivenciar o seu luto e lidar com a culpa. Esse processo vai gerar profundas marcas e favorecer o surgimento da Síndrome pós-aborto (PAS).
Psiquiatras e psicólogos especializados em atender mulheres que abortaram alertam para o aumento dos transtornos emocionais causados pelo aborto provocado. Eles afirmam que os efeitos psicológicos do aborto são extremamente variados e não são determinados pela educação recebida ou pelo credo religioso. Esclarecem que a reação psicológica ao aborto espontâneo e ao aborto involuntário é diferente, está relacionada com as características de cada um desses dois eventos. O aborto espontâneo é um evento imprevisto e involuntário, enquanto o aborto provocado interrompendo o desenvolvimento do embrião ou do feto e extraindo-o do útero materno contempla a responsabilidade consciente da mãe. As mulheres que se submeteram ao aborto afirmam que a culpa não é gerada de fora para dentro, infundida nelas por outras pessoas ou pela religião, ao contrário, ela surge e cresce em seu mundo íntimo a partir do ato abortivo.
Os problemas emocionais gerados pelo aborto são tão graves, que em muitos países onde ele é legalizado, foram criadas, pelas próprias mulheres vitimadas pelo aborto, associações como a Women Exploited by Abortion (Mulheres Exploradas pelo Aborto) nos EUA, e a Asociación de Víctimas del Aborto (Associação de Vítimas do Aborto) na Espanha, que orientam e alertam sobre as consequências prejudiciais do aborto.
O aborto não é definitivamente uma “solução fácil” como afirmam muitos, mas um grave problema, um ato agressivo que terá repercussões contínuas na vida da mulher.
As consequências danosas provocadas pelo aborto à saúde mental nos países onde ele foi legalizado é tão grave como a depressão profunda, que o Royal College of Psychiatrists (associação dos psiquiatras britânicos e irlandeses), alertaram que a mulher deve ser comunicada para os graves riscos emocionas que se submete caso opte pela interrupção da gravidez.
Portanto, aborto nunca será uma solução, sempre um lado ou ambos serão prejudicados. Não é dando a mulher autonomia para matar seu filho dentro de seu ventre que resolveremos os problemas sociais. Isto não passa de demagogia. É necessário investir na educação das massas para prevenção da gravidez indesejada, mas jamais matar uma criança inocente. Os fins não podem justificar os meios.
A sociedade que apela para o aborto declara-se falida em suas bases educacionais, porque dá guarida à violência no que ela tem de pior, que é a pena de morte para inocentes. Compromete, portanto, o seu projeto mais sagrado que é o da construção da paz.
A Associação Médico-Espírita do Brasil reitera seu posicionamento contra qualquer forma de violência a uma nova vida que não põe em risco a vida materna e que surge aguardando o auxílio de braços fortes e sensíveis que lhe ampare em sua fragilidade.
Concitamos a todos os colegas das AMEs para continuarmos firmes em defesa da vida e da paz.

AME-Brasil

REFERÊNCIAS

1) ARAÚJO, Renata Castro Branco. O Sofrimento Psíquico na Pós-Modernidade: Uma Discussão Acerca dos Sintomas Atuais na Clínica Psicológica. Trabalho de Conclusão do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Clínica. Disponível em: http://www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0311.pdf Acessado em 09/02/2016.

2) BAUMAN, Zygmunt. Ética Pós-moderna. São Paulo: Paulus Ed., 1997.

3) BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.

4) BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.

5) BAUMAN, Zygmunt. Cegueira Moral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2014

6) BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. São Paulo: Schwarce ed., 1986.

7) CÁCERES, Ana Carolina Dias ‘Existo porque minha mãe não optou pelo aborto’, diz jornalista com microcefalia. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/02/1735812-existo-porque-minha-mae-nao-optou-pelo-aborto-diz-jornalista-com-microcefalia.shtml Acessado em 09/02/2016.

8) LÖWI, Ilana. A rubéola levou à legalização do aborto no Reino Unido. O zika fará o mesmo no Brasil? Disponível em: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2016/02/rubeola-levou-legalizacao-do-aborto-no-reino-unido-o-zika-fara-o-mesmo-no-brasil.html Acessado em 09/02/2016.

9) RAZZO, Francisco. Um novo nome para uma velha fantasia. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/um-novo-nome-para-uma-velha-fantasia-86ax9r1xg929hkv6wv2iff9io Acessado em 09/02\/2016.

FAMÍLIA: ÉTICA E COMPROMISSO ESPIRITUAL

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Em tempos de delação premiada, propina, corrupção e tantos outros termos que estão mostrando a crise moral em que o nosso país está imerso, qual será a repercussão para nossas crianças e adolescentes?
Aqueles que foram colocados no centro do poder político por nós e, deveriam salvaguardar a ética acima de tudo, estão mostrando que respeito e honestidade não fazem parte da formação dos cidadãos. Com isso, sobra para todos os outros, nós que não estamos neste papel de destaque e os outros políticos, mostrar com nosso exemplo, que a ética é sim um valor substancial para formação do cidadão. Simplesmente porque as crianças e adolescentes precisam de exemplos claros e corretos sobre direitos e deveres diante da vida, para internalizarem os conceitos básicos de comportamento e compromisso com os outros e consigo mesmo.
Afinal, “fazer ao outro o que gostaríamos que nos fizessem” é algo tão básico e inerente às relações humanas que seria redundância repetir, mas vamos repetir mais uma vez para não esquecermos nosso compromisso espiritual.
A família está para a formação do indivíduo assim como o alimento está para a formação das células no organismo. Claro que estamos chamando de família todo grupo de pessoas que coabitam, com parentesco ou não, unidas por múltiplos laços capazes de mantê-los ligados material e moralmente, além de expressarem sentimentos de afinidade e cooperação. 2
Mais do que manutenção material, espera-se que os adultos de cada família possam transmitir a educação e os valores éticos às crianças e adolescentes em relação a todos os outros seres do planeta, de forma a dar sentido ao papel de cada um na co-criação.
Cada um de nós está imbricado na grande rede da humanidade muito antes de estarmos conectados na rede social da internet. Ensinar este valor, mostrando que as nossas atitudes causam um impacto nas atitudes dos outros seres independente de onde estejam, pode agregar à valorização da vida a valorização da ética. Isto é co-criação.
Vamos buscar ser corretos para com tudo e todos na frente de nossos filhos e filhas: devolva um troco errado, não jogue lixo na rua, não deixe água parada, não fure fila, ofereça ajuda sempre que puder – mas não tire a oportunidade do outro buscar por si – ofereça seu lugar nos ônibus, não force a “delação premiada” quando os irmãos fizerem arte, não agrida e respeite o tempo de cada um. Estas e tantas outras formas de dar o exemplo vão ensinar mais do que as longas broncas e castigos aleatórios.
As relações em família mostram às crianças e adolescentes as bases da relação na sociedade e, sobretudo, oportunizam a todos envolvidos nas situações a reabilitação necessária, como nos ensina Joanna de Ângelis 3:
“O ser humano de forma alguma pode viver sem os relacionamentos que lhe constituem fatores básicos para o enfrentamento dos desafios e o desenvolvimento dos valores que lhe jazem interiormente de forma embrionária.”
Além das relações sociais, o compromisso espiritual da família está registrado em nosso psiquismo, é natural que sejamos guiados para cumpri-lo por uma força instintiva, quer dizer, algo transpessoal, não racional nos chamará no decorrer da vida para assumirmos as tarefas acordadas antes do reencarne, é quase como dizer que assinamos um contrato e a fatura chegará para ser paga. E, sim, o esquecimento do passado como lei natural da evolução, irá oportunizar que refaçamos a caminhada, mas também vai dificultar para aqueles que são mais renitentes em aceitar a tarefa como compromisso espiritual, para estes haverá sempre desculpas e justificativas a fim de não cumprir os ajustes necessários entre parceiros de longa jornada.
Neste contexto, sendo a família o ambiente necessário e fundamental para darmos conta do nosso compromisso cármico, não seria um passo a mais se nós entendêssemos que todas as crianças e adolescentes de todas as famílias fazem parte do nosso compromisso espiritual também?
O brinquedo recebido no final do ano pode fazer com que as crianças, sem condições financeiras, sintam-se menos esquecidas pelo Papai Noel, mas com certeza, elas receberão muito mais se nos dedicarmos a elas nos outros dias do ano.
Isso quer dizer que se nós estamos em condições de ensinar, porque já estamos nos educando e já alcançamos um entendimento adiantado de valores, tais como empatia, respeito, solidariedade, cooperação e gratidão, podemos auxiliar na formação de muitas outras crianças e adolescentes, preparando-as para o planeta de regeneração.

Autora: Sheila Simões

Referências:
1. Kardec, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Trad. Pires, J.H. Cap. 11. São Paulo: Instituto de Difusão Espírita, 1988.
2. Simões, S.T.C. e Geremia, C. A Diversidade Sexual Sob a Realidade da Alma. In: Durgante, C.E.A. e Aguiar, P.R.D.C. (Org.). Conectando Ciência, Saúde e Espiritualidade – Vol. 3. Porto Alegre: Francisco Spinelli, 2015.
3. Franco, D.P. O Despertar do Espírito. 9 ed./Pelo Espírito Joanna de Ângelis, pg.133. Salvador: LEAL, 2013.

Artigo: Família e Eutanásia

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O Ser Humano, ao demandar a vida na terra, encontra muitas vezes por oferta uma série de possíveis prazeres, de busca de conforto e segurança, da procura da felicidade. No entanto, neste interim, é acossado por inúmeras intercorrências que o levam ao experimento da dor, nos flagelos sociais, nas distonias mentais, nos conflitos familiares e até mesmo na visita da morte, revestida de doenças abruptas ou prolongadas que inviabiliza-lhe a movimentação no corpo e o fruir dos sentidos.
Frente a esta inconstância – que, em diferentes graus, é peça constituinte da vida – há aqueles que acreditam na existência como eterno gozo, a fim de aproveitar o tempo que lhes resta, apegados às ilusões da juventude e assustados pelo fantasma da velhice. Outros, buscam no status e na locupletação material uma espécie de sentido, que lhes falta, pois tais aquisições não são portadoras por si só da verdadeira paz, que jamais vem descarregada dos sentimentos morais profundos a que destina-se o Espírito. Conforme nos alerta o Espírito Carlos, em psicografia de João Nunes Maia: “as coisas falsas, embora brilhem mais que as verdadeiras, não permanecem clareando” (Gotas de Ouro).
Diante dos embates humanos entre a vida e a morte, surgem as mensagens divinas, por vezes disfarçadas de provações, sem as quais não nos movimentaríamos ainda rumo ao alcance de patamares maiores de entendimento. Toda a vez que nos encontremos cerceados por dificuldades atrozes, lembremos de Jesus que, macerado na cruz, antevia as moradas espirituais de que procedia, desejando a nós que ficávamos o verdadeiro perdão das ofensas às leis maiores, enquanto atestávamos nossa ignorância em frente ao nobre exemplo deste Ser de Luz.
A perspectiva da dor sem solução, do sofrer sem remédio assusta-nos o ser, por vezes despreparado pela visão materialista da vida, ou por uma religiosidade empobrecida, entre os símbolos de céu e inferno tão distantes de nossa realidade. Circunstâncias em que surgem as pretensas soluções imediatas, a fim de dar cabo a dor, aparentemente sem sentido, diante de algo que nos soa como fim, ainda que não o seja.
É neste contexto que se apresenta a eutanásia, sorvida na forma de injeção letal, sob o pretexto de “trazer a paz” àquele que estertora, mas que merece ser devidamente esclarecida, em face da continuidade do Espírito após estes momentos afligentes.
Aceita em países como França, Alemanha, Áustria, e Holanda, por exemplo, é classificada no Brasil como atitude criminosa, embora vez por outra ocorra disfarçadamente em procedimentos paralelos que acabam por ter o mesmo fim. De uma forma ou de outra, constitui uma das pautas atuais das importantes discussões em bioética. Confluindo os termos gregos eu e thanatos (“morte boa”), tal prática é proposta por sincera esperança de aliviar do sofrimento, para alguns, ou de inconsciente desconsideração pela vida, para outros, dentre seus diferentes defensores.
Fossemos seres puramente materiais, fadados a extinguir-nos com a disjunção molecular, a proposta apresentar-se-ia talvez como um alivio a dor alheia, em nosso intento de auxílio. A espiritualidade que nos cerca, no entanto, alerta-nos para outro nível de causas e consequências, onde pretensas soluções podem tornar-se, em verdade, geradoras de maiores dores ao Espírito que somos. O inverso também se verifica, uma vez que beneficiamo-nos de situações por vezes dolorosas, conforme às tomarmos por aprendizado. Nossas necessidades, como seres imateriais, vão muito além daquelas que distinguimos no “mundo das formas”.
Diante das quase infindáveis dores em que se encontra o indivíduo e a família em casos de coma profundo, de morte certa, de dores sem trégua e sem previsão de recuperação, de que adiantaria a espera? Por que não abreviar uma dor sem sentido?
Em 1860, Allan Kardec questionou aos Espíritos sobre o tema, cuja resposta veio a constituir o item 28 do capítulo quinto de O Evangelhos Segundo o Espiritismo:
“Um homem agoniza, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que o seu estado é sem esperança. É permitido poupar-lhe alguns instantes de agonia, abreviando-lhe o fim?”

E obteve como resposta, assinada pelo Espírito São Luis:

“Mas quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir um homem até a beira da sepultura, para em seguida retirá-lo, com o fim de fazê-lo examinar-se a si mesmo e modificar-lhe os pensamentos? A que extremos tenha chegado um moribundo, ninguém pode dizer com certeza que soou sua hora final. A ciência, por acaso, nunca se enganou nas suas previsões?
Bem sei que há casos que se podem considerar, com razão, como desesperados. Mas se não há nenhuma esperança possível de um retorno definitivo à vida e à saúde, não há também inúmeros exemplos de que, no momento do último suspiro, o doente se reanima e recobra suas faculdades por alguns instantes? Pois bem: essa hora de graça que lhe é concedida, pode ser para ele da maior importância, pois ignorais as reflexões que o seu Espírito poderia ter feito nas convulsões da agonia, e quantos tormentos podem ser poupados por um súbito clarão de arrependimento.
O materialista, que só vê o corpo, não levando em conta a existência da alma, não pode compreender essas coisas. Mas o espírita, que sabe o que se passa além túmulo, conhece o valor do último pensamento. Aliviai os últimos sofrimentos o mais que puderdes, mas guardai-vos de abreviar a vida, mesmo que seja apenas um minuto, porque esse minuto pode poupar muitas lágrimas no futuro.”
(O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. V item 28. Grifo nosso)

Em perspectiva esclarecida, o desenlace do Espírito, que abruptamente ou gradualmente despede-se do envoltório corporal, é sim momento derradeiro na terra, mas em vista de seu aproveitamento da experiência fruída, possibilitando-lhe maiores esclarecimentos da fase nova da Vida, ou prolongamento momentâneo das dores que o perseguem.

A família ante a eutanásia

Impossível pensar-se esse assunto sem o entrelaçamento à dinâmica familiar, que de formas variadas atingem a todas as criaturas no planeta. Formada frequentemente por desafetos do passado, e alguns espíritos afins – conforme nos revelam os Espíritos envolvidos na codificação da Doutrina Espírita – , a união familiar tem por vias diluir débitos do passado através da repetição e/ou variação de posições parentais, permitindo, assim, a reedição de velhos conflitos na proposta de empreitadas edificantes, por vezes muito angustiosas, mas também libertadoras ao acessar e movimentar os escaninhos profundos de nosso inconsciente, de nossas personalidades ainda um tanto grosseiras.
Assim, a família – célula elementar da sociedade, delimitando as relações primárias do indivíduo com o meio a que pertence – constitui-se de valorosa escola pela qual todos temos a oportunidade de exercitar as capacidades morais necessárias a nosso ser, em vias de sua jornada evolutiva pelas diferentes etapas de nossa ascensão espiritual. Não por acaso foi elegida por Confúcio, e outros sábios orientais da antiguidade, como o grande modelo a pautar as relações morais desde o camponês ao príncipe, em diretriz política e social herdada para a China milenar, ainda que alterada desde priscas eras.
Se, por desgosto ao círculo em que formos originados, renegarmos totalmente à família, afastarmo-nos da sociedade e buscarmos a vida eremita, vinculado às cavernas, à fuga para natureza e demais lugares ermos, ainda assim carregaríamos a população de “vozes internas” que inunda-nos o ser, em uma enxurrada inconsciente a pedir-nos resolução. São as imagens psicológicas que guardamos das figuras parentais e “dos outros” em geral, e das quais não poderemos livrarmos, muito menos em atos de revolta para com a vida, identificando-nos com suas demandas ou combatendo-as desesperadamente. Necessitam, na verdade, serem superadas em busca do autoconhecimento, a fim de que reintegremos estes sentimentos e pensamentos harmoniosamente, visto serem nada mais do que projeções inconscientes de nossos próprios complexos não solucionados, a ressoar sob a figura do próximo, estando este envolvido ou não com a conflitiva que abateu-nos.
Partindo do ponto de vista do indivíduo, atitudes autodestrutivas – como o alcoolismo, a drogadição, o suicídio, e demais comportamentos de risco – tendem a trazer uma boa parcela inconsciente de tentativa de livrar-se desta multidão de vozes internas, das opiniões familiares, que lhe torturam a personalidade devido a incompreensão de uma ou de ambas as partes. Destruindo-se, desta forma, destrói-se também os outros que “habitam” em nós, como fantasiosamente se acredita nestes momentos infelizes.
Partindo do ponto de vista dos demais familiares, o parente que sofre é convite declarado para que todos revejam pensamentos e sentimentos, a fim de direcionar suas atitudes à cooperação com o outro. Trabalho este que tem início em nosso próprio aprendizado, revendo em que a dor alheia tem a nos ensinar, seja pelas virtudes ou tropeços destes entes queridos. Pois não basta apontarmos os males – isto todos fazem –, o mérito está em emularmos em nós as possíveis soluções, colocando-nos no lugar do próximo na busca de melhores resoluções morais.
O enfermo que estertora mobiliza em todos os mais variados conjuntos de sentimentos; como o medo e impotência diante da morte; de que não amamos aquele ser o quanto devíamos; a revolta diante da doença, da própria Vida, e da Divindade. É também ponto de união, onde os familiares veem-se em necessidade de esforçarem-se e sustentarem-se diante da prova em questão.
Situações limites como esta tendem a testar nossas fibras morais, auxiliando a flexibilização de nossas certezas diante da vida e morte, inicialmente para suportarmos o ocorrido, e finalisticamente como despertamento para as maiores reflexões acerca da sobrevivência do Espírito e suas consequências em nossa vida diária.

Vida e Sociedade

Aos idos tempos de Esparta, a mais belicosa cidade-estado a compor a península grega, defrontávamos com uma sociedade sem espaço para aqueles considerados inválidos, de alguma forma. Os bebês que nascessem com deformidades eram atirados de penhascos, a fim de se estabelecer uma sociedade “perfeita” em suas funções corporais. O infanticídio era acompanhado, também, do descarte aos mais velhos, incapazes de lutar. Descendente dos Dórios – um dos últimos povos a se estabelecerem violentamente na região do Peloponeso, em regime de combate aos demais vizinhos –, o considerado cidadão espartano, entre outras coisas, era o que estivesse pronto para a guerra, em uma sociedade altamente excludente e moralmente aquém de seus contemporâneos atenienses, mais evoluídos em termos artísticos e filosóficos.
Ainda anteriormente, em algumas tribos paleolíticas que habitaram ao redor do mundo, como ainda o há em pequenos focos, abandonar os mais velhos a própria sorte era uma forma de garantir a sobrevivência do bando, uma vez que estes eram considerados um peso aos demais. Incapazes de caçar e necessitando de cuidados maiores, entravavam-lhes o movimento nômade que lhes era característico, na busca de zonas com maiores recursos alimentícios.
Contemporaneamente, uma visão utilitarista do indivíduo – classificado apenas por sua capacidade de produção, ou então de “constituir biografia”, conforme alguns controversos filósofos contemporâneos – ganhou corpo junto à visão materialista que instaurou-se nos meios médicos e científicos em meados do século XIX. Materialismo, este, decorrente do movimento cientificista, interessado em exaltar alguns ramos da ciência mecanicista como expressão máxima da realidade, na verdade, em interpretação limitada e unilateral de ambas.
Por este viés, a vida nada mais se constitui do que um caminhar preciso em direção a morte, à finitude, onde dar-se-ia o encerramento total daquilo que o indivíduo um dia foi. Em revolta declarada aos dogmas impostos pela religião controladora, como principal motivo, a ciência ganhava em técnica e perdia em sabedoria, em espiritualidade.
Em algumas correntes radicais (mas não hegemônicas) da bio-medicina e da filosofia da ciência contemporânea (ex: Francis Crick e casal Churchland), seriamos assim considerados robôs biológicos, onde nossas mentes deixam de existir com a morte do cérebro e dos sistemas cardíaco respiratório. Descartáveis, portanto, quando em vias de inutilizarmo-nos fisicamente, por esta visão.
Em contraponto, uma série de renomados cientistas vêm propondo uma visão diferente do aspecto mente e cérebro, desde o próprio René Descartes (pai do mecanicismo-cartesiano), a nomes atuais como Karl Popper, Pin Van Lomel, Mario Beuregard, entre outros. Impulsionados principalmente pelas chamadas Experiências de Quase Morte (EQM), onde pacientes ressuscitados verbalizam uma série de vivências fora do corpo físico, caracterizadas por conteúdo paradoxal. Nestas vivências, relatam encontros com parentes desencarnados, saídas do corpo, e relatos de procedimentos cirúrgicos discutidos junto a eles ou em salas separadas.
Podemos considerar como o início de uma mais expressiva consideração da vida após a morte nos meios médicos e científicos. Tal constatação, que ganha espaço aos poucos em nossa sociedade, vem trazer-nos uma série de reposicionamentos em nossa forma de viver e ver a vida. Traz consequências inevitáveis para assuntos contraditórios, por vezes tidos como “liberalizantes”, tal os flagelos da drogadição, do aborto intencional e da interrupção ativa da vida em intervenções hospitalares, como no caso da eutanásia e do suicídio assistido.
A descoberta da dimensão espiritual – faixa primordial da realidade que a todos cerca – vem a somar-se com destacada importância às debatidas dimensões psicológicas, biológicas e culturais do ser humano, encadeando-as para uma compreensão ainda mais ampla, complexa e integral do fenômeno da vida.

O efeito da eutanásia sobre o Espírito desencarnante

André Luiz, médico desencarnado na primeira metade do século XX, nos relata um interessante caso, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, onde é possível sentir-se os efeitos atordoantes do desligamento abrupto entre espírito e corpo, através da eutanásia. Se encontrava a equipe de André Luiz na esfera espiritual da vida, cooperando cirurgicamente para o desenlace de Cavalcante, moribundo, com vistas a diminuir o impacto que sentiria com seu falecimento iminente, que se daria de forma natural em algumas horas.

“O clínico, todavia, não se demorou muito, e como o enfermo lutava, desesperado, em oposição ao nosso auxílio, não nos foi possível aplicar-lhe o golpe extremo. Sem qualquer conhecimento das dificuldades espirituais, o médico ministrou a chamada “injeção compassiva”, ante o gesto de profunda desaprovação do meu orientador [espiritual].
Em poucos instantes, o moribundo calou-se. Inteiriçaram-se-lhes os membros, vagarosamente. Imobilizou-se a máscara facial. Fizeram-se vítreos os olhos móveis.
Cavalcante, para o espectador comum, estava morto. Não para nós, entretanto. A personalidade desencarnante estava presa ao corpo inerte, em plena inconsciência e incapaz de qualquer reação.
Sem perder a serenidade otimista, o orientador explicou-me:
– A carga fulminante da medicação de descanso, por atuar diretamente em todo o sistema nervoso, interessa os centros do organismo perispiritual. Cavalcante permanece, agora, colado a trilhões de células neutralizadas, dormentes, invadido, ele mesmo, de estranho torpor que o impossibilita de dar qualquer resposta ao nosso esforço. Provavelmente, só poderemos libertá-lo [do corpo] depois de decorridas mais de doze horas.
E, conforme a primeira suposição de Jerônimo, somente nos foi possível a libertação do recém-desencarnado quando já haviam transcorrido vinte horas, após serviço muito laborioso para nós. Ainda assim, Cavalcante não se retirou em condições favoráveis e animadoras. Apático, sonolento, desmemoriado, foi por nós conduzido ao asilo de Fabiano [local na espiritualidade], demonstrando necessitar maiores cuidados.”
(André Luiz. Obreiros da Vida Eterna. Psicografia de Francisco Cândido Xavier. Cap. 18. FEB, 2011)

Assim, como em diversos exemplos, o corpo morre, mas a alma prossegue, com sofrimento maior ou menor conforme o apego com o corpo ou a sutilização dos laços espírito-matéria. As horas finais de Cavalcante não apenas eram-lhe necessárias para reflexões conclusivas desta encarnação (conforme maiores informações na obra em questão), como pudemos compreender que a própria interrupção arbitrária da vida em injeção letal gerou-lhe grande mal-estar desnecessário.

Medida preparatória

Considerando a importância dos momentos derradeiros do ser, ainda que dolorosos, relatemos aqui determinado caso narrado por um dos médiuns de nossa seara de atuação espírita. Encontrava-se sua família a duras lágrimas em vista de sua avó, que devido a problemas vasculares seguidos de parada cardíaca adentrou-se em coma profundo, carregando todos a um estado crônico de espera angustiosa entre a vida e a morte.
Após meses nesta situação, os familiares obtiveram auxílio em atividade mediúnica, onde os venerandos orientadores informaram a condição da enferma: estava em processo preparatório que lhe definiria, na verdade, a qualidade de sua entrada completa no mundo dos Espíritos. Amada por todos os familiares, trazia, porém, determinado caráter combativo e exigente, muitas vezes marcado pelo rancor. A senhora, naquele momento, defrontava-se com inúmeros perseguidores espirituais que lhe acompanhavam em vida, e que esperavam seu desencarne para dar continuidade a processos obsessivos mais severos. Movidos, estes, pela ideia da vingança, por conflitos de vidas passadas.
Seu período de coma, que durou mais de ano e meio, seria uma intervenção da espiritualidade superior em seu proveito, devido a outros méritos seus. Afastada parcialmente do corpo pela situação em que se encontrava, a irmã antevia o mundo espiritual com maior clareza, teimosa mas assustada, e deliberava com seus mentores a mudança de estado mental em que se arraigava. A situação a se definir, portanto, clamava pela prece de todos.
Nosso colega, na época em despertar abundante de suas faculdades mediúnicas, evitava injustificadamente a visita ao leito hospitalar da avó amada. Após ponderar com clareza, aquiesceu em encontrá-la, ainda temendo maiores abatimentos psicológicos. A visão da senhora inerte, no entanto, lhe despertou profunda compaixão. Captando-lhe as emanações mentais, deu início quase que imediatamente a processo telepático involuntário, em que visualizou a enferma um pouco mais resoluta de sua passagem, mas apegada apenas a preocupações com determinada filha que lhe dependia financeiramente e afetivamente, em situação psicológica um tanto emaranhada.
Tal informação, que até então era ignorada por este companheiro, foi comunicada aos membros próximos do grupo familiar, que tomaram por resolução educar a parente a autogerir-se. Em conversa junto a senhora em coma, uma de suas filhas pediu que não se preocupasse com isso, pois todos dariam o devido auxílio emocional a outra filha, que não ficaria sozinha no mundo.
Dentro em breve, a senhora abandonava o corpo físico, rumando definitivamente para a Vida Maior, mais esclarecida e preparada. Nas primeiras horas após o desenlace, ainda foi-lhe permitido despedir-se do neto (o colega em questão), desta vez através do processo de clariaudiência, com emocionantes palavras que lhe marcaram o íntimo, a atestar-lhe a vida após a morte.
Tão digna é a vida em suas inúmeras manifestações! Ainda que debatemo-nos com seus impositivos ela visita-nos com novos ares de esperança confirmando a importância de sermos pacientes e confiantes em nossas caminhadas. Como no caso exposto, o caminho da senhora se cruzava aos demais, não isentando-a de seu livre arbítrio e individualidade, mas convidando todos a elevarem-se em conjunto, no abandono das atitudes errôneas do passado que tenham vindo a delimitar a necessidade coletiva de tamanha expiação.
O valor da família, consanguínea ou espiritual, fortalece-nos a caminhada. O convívio pode ser desafiador, por vezes, ainda assim é sempre tempo de esperanças, pois o Espírito prossegue, defrontando-se com aquilo que abandonou, descobrindo tesouros na alma onde jamais esperava encontrar.
Cabe a família, portanto, o dever de buscar elevar-se mutuamente, não dependendo uns dos outros para a tarefa que compete ao indivíduo, mas buscando apoiar-lhes nas dores, suportar-lhes os confrontos, impulsionar-lhes ao bem, em proposta de benefício a todos. Neste meio, nossa visão da vida – materialista e orgulhosa, ou pautada na transcendência do espírito e valorização do outro – influi muito na forma como lidaremos com as situações limites.
Como Espíritos em regime de encarnação momentânea, nossa sublime caminhada ascensional, como não se restringe a nossa encarnação atual, não raro tem encontrado dificuldades de ser valorizada em nossas metas pessoais, tão esquecida frente aos “chamados do mundo”, assim que adentramo-nos na reencarnação e na vida diária. Esquecemos assim, com facilidade, aquelas diretrizes nobres assumidas por nós mesmos frente a perspectiva de uma nova vida no mundo. Afogadas no inconsciente, tendem a ressurgir em propostas criativas, em ensejos de elevação moral e aquisição cultural, ou então mediante dores afligentes, conforme nossa surdez aos seus chamados anteriores, ou conforme o plano inevitável para experiências libertadoras.
O Espiritismo vem convidar-nos ao reconhecimento dos seres espirituais que somos, anteriormente, concomitantemente e após a visita ao corpo denso através da reencarnação. Ao contrário do que pensam alguns, nossa vida espiritual não começa no desencarne, visto que a vivemos desde já, apesar de a percebermos de forma confusa, ofuscada pelo efeito da matéria e do esquecimento natural das vidas passadas. Somos verdadeiros dínamos de energia a irradiar nossos pensamentos e sentimentos ao nosso redor, em um intenso intercâmbio com os seres desencarnados que nos cercam, podendo estes se afinar a nós com propostas elevadas ou não.
É como se a sintonia espiritual em que nos encontramos, decorrente de nossos atos e reflexões morais, constituísse a verdadeira “matéria” que nos reveste, influenciando nosso corpo físico, nossa dinâmica de atração ou repulsa nos convívios sociais e até mesmo os rumos de nossas mais profundas inquirições, independentemente de quão puramente racionalizados nos imaginemos. É neste contexto que devemos voltar nossa atenção para as qualidades íntimas do Ser atentando aos sentimentos e pensamentos que lhe caracterizam, pois influem no grande momento da transição, ocasionado pela morte física.
Uma passagem “bem sucedida”, com o esforço possível em elevar-se o pensamento pelo grupo familiar, confere àquele que parte maior cabedal de proteção, uma vez que mais dificilmente sentirá à distância os sentimentos coletivos de revolta e pessimismo que lhe embargariam a adaptação ao mundo espiritual. Não pensemos que isto se trata de desdém pela morte ou pelos seres queridos, dos quais sempre sentimos a falta, mas proposta sincera e resignada de reeducação espiritual, no lento acostumar-se em encarar a vida como continuidade. Proposta difícil, por vezes, porém meritória, a gerar frutos para nós e para aqueles que nos cercam.
Tão rico o valor do minuto daquele que se encontra nos ímpares estados de aflição, ainda que isso estranho nos pareça. Quão consoladoras podem ser as visitas de entes queridos, tomadas por “alucinações do momento final” – uma vez que passa-se a ver e cumprimentar aqueles que “já se foram”. Como nos conclama O Evangelho Segundo o Espiritismo, façamos o máximo para lhes diminuir as dores, porém jamais cessemos a vida.
Não raras vezes é o minuto que o ser precisa e merece para realinhar-se momentaneamente em vias de adentrar a pátria espiritual com maior desprendimento das dores que passa, maior perdão para com a vida, maior preparo junto aos seres amados que lhe esperam em festa.
A mediunidade, atestando a continuidade das consciências ao esfacelamento do corpo, abre aos campos científicos, religiosos, éticos e filosóficos toda uma gama de reflexões paradoxais, que convidam-nos a uma mudança profunda de entendimentos.
As comunicações de nossos queridos desencarnados desvelam-nos outro lado da vida, salientando causas e efeitos que para nós passam constantemente despercebidos, mas que, para eles, são fatores altamente determinantes: a influência que exercemos uns sobre os outros através das correntes de pensamentos; a ininterrupta ação dos espíritos desencarnados sobre a vida daqueles que ainda transitam na carne; o estado de consciência a que nos deparamos segundo os apegos, vícios ou virtudes a que nos entregamos em vida; as próprias reflexões do ser em vias da eternidade…
Uma vez que conferimos a realidade da vida após a morte, em suas múltiplas expressões, torna-se impossível nos mantermos alheios às perspectivas esclarecedoras que surgem, senão voluntariamente presos à ignorância sobre nossa própria natureza. As reflexões acerca das graves consequências da eutanásia ao indivíduo, na família e na vida total, encontram-se entre os chamados de nossa Era, convidando-nos a harmonizar diretrizes sociais com o equilíbrio intelecto-moral que nos é possível adquirir.

Autor: Alexandre Fontoura dos Santos

Artigo: O papel dos pais na atualidade

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Cada vez mais nos deparamos com conflitos familiares decorrentes de ausência de limites entre pais e filhos, dificuldades de um dos pais ou de ambos em assumir a paternidade frente aos filhos (muitos terceirizam esta função), bem como a falta de maturidade frente ao comprometimento diante da construção e condução de uma família.
No capítulo XVII do Evangelho, segundo Espiritismo, mais precisamente, nas instruções dos espíritos, Lázaro refere na fala do DEVER:
O dever é a obrigação moral, primeiro para consigo mesmo, e depois para com os outros. O dever é a lei da vida: encontramo-lo nos mínimos detalhes, como nos atos mais elevados. Quero falar aqui somente do dever moral(…)Na ordem dos sentimentos, o dever é muito difícil de ser cumprido porque se encontra em antagonismo com as seduções do interesse do coração. O dever íntimo do homem está entregue a seu livre arbítrio(…)O dever começa precisamente no ponto que ameaçais a felicidade ou tranquilidade do vosso próximo, e termina no limite que não desejaríeis ver transposto em relação a vós mesmo(…)O dever é o resumo prático de todas as especulações morais. (…)O homem que cumpre o seu dever ama a Deus mais que as criaturas, e as criaturas mais que a si mesmo, é a um só tempo, juiz e escravo na sua própria causa.
E a paternidade assumida pelo livre arbítrio deve ser entendida e exercida como um dever moral assumido.
Sabemos que, ainda no plano espiritual, ao fazermos nosso planejamento reencarnatório, nos comprometemos a enfrentarmos vários desafios e a exercer muitas funções no plano terrestre. Oportunidades de reparações e resgastes naquilo que não conseguimos concluir ou realizar nas encarnações anteriores.
Segundo Walter Barcelos, no livro Educadores do Coração, (Cap.10 O pai espírita, p.75)
O espírito retorna à Terra, graças à fusão dos elementos genésicos do pai e da mãe, que transferem suas cargas hereditárias biológicas para a formação de um novo corpo. Através desse maravilhoso fenômeno da natureza, Deus quer mostrar que os filhos devem ser dirigidos para o bom caminho, com esforço educativo de ambos os genitores.
O homem e a mulher possuem traços psicológicos diferentes que determinam funções também diferentes, mas que são complementares e necessárias a formação da personalidade da criança. Logo, o papel de cada um é de fundamental importância. Mesmo em casamento desfeitos o comprometimento e a responsabilidade frente aos filhos permanece inalterável, condição não seguida em muitas famílias.
Aspectos a serem observados pelos pais na busca de uma relação sadia com os filhos:
*Os pais provêm não só o material, mas o afeto, os cuidados com: saúde biopsicossocial; a formação intelectual, moral e espiritual;
*a responsabilidade da educação dos filhos é insubstituível;
*a relação e diálogo entre pais e filhos tem que envolver transparência e verdade;
*as trocas afetivas na convivência acontecem numa ordem de pais amigos e não de amigos pais;
* a imposição de limites é fundamental para uma educação eficiente
*a importância de alternar no cotidiano da vida, momentos das tarefas e responsabilidades a cumprir com momentos de lazer, de brincadeiras, de leveza, vivenciando pais e filhos, cumplicidade e parceria.
A responsabilidade dos pais é intransferível, não pode ser terceirizada à Escola, nem a profissionais que cuidam ou tratam as crianças. A função da família é fundamental e essencial na construção da personalidade da criança.
E quanto mais essa família for estruturada e sadia, mais chances a criança terá de desenvolver-se também de uma forma sadia e feliz.
Atualmente existem novas famílias constituídas por pais do mesmo sexo, ou por um só responsável (pai ou mãe), ou com filhos adotados, ou por um segundo casamento onde os filhos dessa união convivem com os irmãos das uniões anteriores. As responsabilidades e comprometimentos desses pais nessas novas famílias se mantém da mesma forma que nas tradicionais.
Uma relação que tem por base o respeito ao ritmo, às diferenças e ao tempo de cada um irá contribuir na formação de um ser mais sadio, necessidade cada vez maior em nossos tempos atuais.
Os pais precisam entender que o exercício da paternidade é uma missão e a eles cabe vivencia-la, pois só assim seguirão construindo seu progresso espiritual.

Autora: Beth Schuck

Artigo: Turbulência Nas Relações: Como minimizar o impacto da separação nos filhos pequenos?

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As relações, especialmente as de origem mais íntima como a familiar, oferece-nos grandiosa oportunidade de maturação interna, visto que no convívio com o outro nos deparamos constantemente com nossos próprios complexos, tendo de desenvolver métodos de lidar com eles. O divórcio, em nossos tempos, tem servido muitas vezes como válvula de escape diante das pequenas frustrações e dificuldades do dia-a-dia. Não obstante, quando os conflitos passam a pesar mais do que o crescimento na relação, trazendo muitas vezes prejuízo, não só ao casal, mas ao desenvolvimento dos filhos, apresenta-se como alternativa saudável de retomada do equilíbrio emocional.

Neste caso, aos pais cabe o discernimento de:

– evitar discussões perante as crianças, conversando a sós em momento próprio;
– tomar a decisão a dois e somente depois, com calma, informar aos filhos;
– jamais perguntar aos filhos o que acham que deveria ser feito (pois esta é uma forma de atribuir-lhes a responsabilidade pelo divórcio dos pais);
– jamais dizer aos filhos que a separação está se dando por culpa deles;
– esclarecer o quanto a relação da mãe ou do pai com os filhos continuará a mesma, ainda que em configuração de lares diferentes;

Não existem temas inabordáveis que o amor não possa discutir e esclarecer. O lar, ainda, não somente é a base da sociedade, mas também uma escola, na qual os exemplos penetram mais do que as palavras e constituem a base das relações futuras das crianças ali presentes. “Os pais são como um espelho que reflete a imagem da realidade que sempre servirá de orientação aos filhos”.*

Recomendamos, por fim, a busca de apoio profissional quando necessário, pois muitas vezes se iludem aqueles que pensam que ao trocar de parceiro encontrarão a felicidade, já que carregamos a nós mesmos onde quer que nos encontremos ou com quem estejamos. O autoconhecimento, o respeito a si e ao próximo são ferramentas de combate ao egoísmo e ao orgulho, que podem auxiliar o sujeito em sua caminhada rumo à individuação** e ao convívio harmônico com o outro.

* Joanna de Ângelis, no livro “Constelações Familiares”
**termo criado por CG.Jung para definir o processo de integração do ser humano, o “ser quem se é”.

Michelle Ponzoni dos Santos
Psicóloga, Psicanalista, Terapeuta Junguiana

Artigo: Alienação Parental: Triste Capítulo Da Violência Contra A Criança

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Chamamos alienação parental quando o filho é usado por um dos genitores como instrumento de agressão com relação ao outro. É uma forma de violência contra a criança que, infelizmente, passa muitas vezes desapercebida e é mais comum do que se pensa.

Fique atento aos sintomas:

– não comunicar ao outro genitor fatos importantes com relação à vida da criança e tomar decisões sozinho;
– exercer excessivo controle com relação aos momentos em que a criança deve estar com o outro genitor (criando inúmeras atividades para o mesmo dia, tornando-o extenuante, por exemplo);
– “esquecer” de dar recados que o outro genitor ligou, etc., descuidar presentes dados por ele, gerando sentimentos na criança de que o pai ou a mãe não dá importância a ela;
– obrigar a criança a optar entre um dos genitores;
– mostrar desagrado diante do contentamento da criança com relação ao outro genitor;
– desqualificar o outro constantemente;
– tornar a criança espiã da vida do outro genitor.

A criança, nestas situações, tende a apresentar manifestações de raiva com relação ao genitor alienado, distanciamento físico e emocional e nutrir sentimentos que não estão de acordo com a realidade. A perturbação pode gerar também inúmeros transtornos de aprendizagem e sociabilização na escola. São mais propensas a desenvolver, futuramente, quadros de transtornos de humor, dependência química, baixa autoestima, suicídio, dificuldade em criar elas próprias vínculos e relacionamentos saudáveis.

Evidência de uma sociedade ainda primitiva no que tange a lidar com emoções, as manifestações de vingança e violência ainda persistem, quando não diretas, de modo sutil. Quem sofre, geralmente, são aqueles que deveriam ser os mais protegidos e amparados: os filhos.

Deve-se evitar sempre expor os pequeninos às discussões, mantendo em primeiro plano a responsabilidade para com eles. Independentemente da situação entre os pais, a criança precisa saber que continua sendo amada por ambos, jamais sendo transformada em cúmplice dos desajustes afetivos dos mesmos.

Michelle Ponzoni dos Santos
Psicóloga, psicanalista, junguiana

Religiosidade na Adolescência

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Embora a religiosidade e a espiritualidade sejam parte integrante da existência humana desde os seus primórdios, a sua definição se mantém controversa no meio científico (1). Por isso, alguns pesquisadores (2) entendem que, diante de seu caráter multidimensional, religiosidade e espiritualidade são mais bem compreendidas como conceitos sobrepostos, já que compartilham características em comum. De uma forma geral, a espiritualidade tem sido entendida como um fenômeno subjetivo da busca pelo sagrado, pelo transcendente, pelo divino e pelos aspectos não materiais (2, 3). Já a religiosidade tem sido compreendida, de maneira mais ampla, como um fenômeno associado à religião e seus sistemas de crenças, rituais, práticas e valores específicos à cada filiação religiosa (2) que, portanto, se caracteriza mais como uma expressão social e compartilhada.

Em um estudo muito interessante, as pesquisadoras Good e Willoughby (4) defenderam a ideia de que a adolescência é um período em que o indivíduo está mais sensível ao desenvolvimento da espiritualidade e o envolvimento com a religiosidade. Os adolescentes estariam mais suscetíveis que as crianças e os adultos a determinados comportamentos como explorar a ideias religiosas, afiliar-se a uma religião e comprometer-se com ela, além de assumir compromissos religiosos que perduram para o resto da vida.

Conforme a mentora Joanna de Ângelis, na obra Adolescência e Vida (9, p.62), “Na adolescência, os ideais estão em desabrochamento, abrindo campo para os postulados religiosos que, bem direcionados, norteiam com segurança os passos juvenis, poupando o iniciante nas experiências humanas a muitos dissabores e insucessos nas diferentes áreas do comportamento (…)”. Assim, fica registrada a importância da adolescência para o desenvolvimento da religiosidade, já que esta etapa da existência caracteriza-se como um período de sensibilidade ao espiritual e ao religioso.

Por outro lado, e tão importante quanto, percebe-se no apontamento da Mentora a importância da religiosidade na adolescência, já que a religião contribui em bem direcionar os potenciais do Espírito, conferindo-lhe segurança e recursos para o enfrentamento de suas adversidades. É o que apontam muitas pesquisas científicas, que indicam uma relação positiva entre religiosidade e comportamentos saudáveis na adolescência, assim como uma relação negativa entre religiosidade e comportamentos sociais negativos (5), como consumo de substâncias tóxicas e delinquência (6). Em outras palavras, quanto mais envolvido com a religiosidade o adolescente esteja, mais provável que ele apresente comportamentos sociais saudáveis e menos comportamentos prejudiciais ao seu bem estar físico, social, psicológico e espiritual. Os benefícios da religiosidade à saúde também são muito comumente apontados pela ciência. Conforme André Stroppa e Alexander Moreira-Almeida (7), por exemplo, um maior envolvimento religioso aparece associado a indicadores de bem-estar psicológico e também a um menor índice de depressão.

Em resumo, a religiosidade na adolescência aparece como uma importante fonte de recursos aos adolescentes, sendo capaz de fortalecer o seu mundo íntimo e influenciar de maneira saudável o comportamento dos jovens. Na adolescência, essa etapa em que “se lhe fixam os caracteres, os hábitos e se delineiam as possibilidade de enriquecimento para o futuro (9, p.6)”, “a religião desempenha um papel importante na formação moral e cultural do adolescente, por propiciar-lhe a visão da imortalidade, dilatando-lhe a compreensão em torno da realidade da vida e dos seus objetivos essenciais”.

Destas passagens de Joanna de Ângelis, podemos destacar alguns elementos essenciais, que contribuem para entendermos como a religiosidade pode beneficiar o adolescente e, sobretudo, o Espírito Imortal. Na adolescência é que se fixam os caracteres, os hábitos e a religião, como um sistema de crenças, práticas e rituais, promulga, muitas vezes, hábitos de vida saudável e comportamentos pró-sociais. Nessa etapa da vida, em que o Espírito sofre acentuadamente a influência emocional das vidas passadas, é que a religião pode ajudar o Espírito a tomar novos rumos em sua existência, abandonando velhos hábitos, através de novos que lhe são apresentados. Joanna de Ângelis (10, p.44) esclarece que “(…) desidentificando-se de hábitos milenares, fixados, alguns, atavicamente, aos painéis do ser, gerando falsas necessidades, que se tornam fundamentais, portanto responsáveis pelos sofrimentos em suas várias facetas”. A Mentora (10, p.43) ainda indica a forma de prevenção/cura desses hábitos, já que “As atitudes que caracterizam a pessoa resultam do convívio social e das aspirações cultivadas (…)”. Ao que parece, a religião permite ao adolescente o entendimento de ser imortal que é e, assim, anelar aspirações saudáveis para cultivar hábitos saudáveis em sua vida.

Cabe ainda revermos a nota feita na Questão 685 de O Livro dos Espíritos:

(…) a educação. Não a educação intelectual, mas a educação moral, e não, ainda, a educação moral pelos livros, mas aquela que consiste na arte de formar caracteres, a que dá os hábitos: porque a educação é o conjunto de hábitos adquiridos. Quando se pensa na massa de indivíduos jogados cada dia na torrente da população, sem princípios, sem freios, e entregues aos seus próprios instintos, deve-se espantar das consequências desastrosas que resultam?

As partes em destaque foram salientadas pelo próprio Allan Kardec e, ao ler a nota do Codificador em seguida das passagens citadas de Joanna de Ângelis, parece que ambos conversam sobre o mesmo assunto. Quem sabe? O importante é que o adolescente é esse ser da massa de indivíduos que são jogados a cada dia na torrente da população – e do universo adulto – muitas vezes sem recursos e sem lastro moral para o enfrentamento das adversidades da vida.

Assim, a religião pode significar o acolhimento do adolescente em sua inteireza de espírito encarnado e o norte que o conduz aos valores eternos, ao contato com o Divino e o Sagrado, libertando-o da visão materialista e estreita da vida. Como aparato educativo, a religião pode ajudar o adolescente nessa etapa de transição, em que valores morais e o senso de espiritualidade podem ser fundamentais para o engajamento saudável do jovem na sociedade.

 Autor: Guilherme Jahn, estudante de psicologia, Departamento de Saúde Mental da AMERGS.

Referências

  1. Yonker, J. E., Schnabelrauch, C. A. & DeHaan, L. G. (2012). The relationship between spirituality and religiosity on psychological outcomes in adolescents and emerging adults: A meta-analytic review. Journal of Adolescence, 35, 299–314.
  2. Miller, W. R. & Thoresen, C. E. (2003). Spirituality, religion, and health: An emerging research field. American Psychologist, 58(1), 24-35.
  3. Good, M., Willoughby, T. & Busseri, M. A. (2011). Stability and change in adolescent spirituality/religiosity: A person-centered approach. Developmental Psychology, 47(2), 538-550.
  4. Good, M. & Willoughby, T. (2008). Adolescence as a sensitive period for spiritual development. Child Development Perspectives, 2(1), 32-37.
  5. Stolz, H. E., Olsen, J. A., Henke, T. M. & Barber, B. K. (2013). Adolescent religiosity and psychosocial functioning: Investigating the roles of religious tradition, national-ethnic group, and gender. Child Development Research, 2013, 1-13.
  6. Dias, M. L. V. (2011). Religiosidade e comportamento desviante na adolescência: Dados de um estudo empírico. Revista Portuguesa de Pedagogia, 45(1), 5-23.
  7. Stroppa, A. & Moreira-Almeida, A. (2008). Religiosidade e saúde. In: M. I. Salgado & G. Freire (Eds.), Saúde e espiritualidade: Uma nova visão da medicina (pp. 427-443). Belo Horizonte: Inede.
  8. Laird, R. D., Marks, L. D. & Marrero, M. D. (2011). Religiosity, self-control, and antisocial behavior: Religiosity as a promotive and protective factor. Journal of Applied Developmental Psychology, 32, 78-85.
  9. Franco, D. (2010). Adolescência e Vida – Pelo Espírito de Joanna de Ângelis. Retirado de http://www.luzespirita.org.br/leitura/pdf/L102.pdf em Agosto de 2014.
  10. Franco, D. (2010). O Ser Consciente – Pelo Espírito de Joanna de Ângelis. Salvador/BA: Livraria Espírita Alvorada Editora.

“Será que estamos cuidando de nosso jardim?”

“Será que estamos cuidando de nosso jardim?”garden-5

Clenir Bueno

Alexandre Fontoura dos Santos

 

Não deixe de sonhar, mas enfrente as suas realidades no cotidiano.

Reduza suas queixas ao mínimo, quando não possa dominá-las de todo.

Fale tranqüilizando a quem ouve.

Deixe que os outros vivam a existência deles, tanto quanto você deseja viver a existência que Deus lhe deu.

Não descreia do poder do trabalho.

Nunca admita que o bem possa ser praticado sem dificuldade.

Cultive a perseverança, na direção do melhor, jamais a teimosia em pontos de vista.

Aceite suas desilusões com realismo, extraindo delas o valor da experiência, sem perder tempo com lamentações improdutivas.

Convença-se de que você somente solucionará os seus problemas se não fugir deles.

Recorde que decepções, embaraços, desenganos e provações são marcos no caminho de todos e que, por isso mesmo, para evitar o próprio enfaixamento na obsessão o que importa não é o sofrimento que nos visite e sim a nossa reação pessoal diante dele.

 

(André Luiz, do livro “Paz e Renovação”, Francisco Cândido Xavier)

 

Baseados nesta mensagem de André Luiz, que para nós é um convite a reflexão, busquemos situar tal tema no contexto familiar – núcleo onde geralmente vivemos nossos maiores embates e nos quais levaremos as melhores lições.

Em geral, toda relação amorosa começa com um sonho. Inicialmente, uma fantasia de encontrar a pessoa amada e, posteriormente, a realização do mesmo quando o encontro ocorre.

Quando acontece o encontro, geralmente mobilizado pela paixão, criamos novos sonhos que poderão se tornar realidade com a união de duas almas. Em geral, como nos fala Andre Luiz,  os casamentos são uniões cármicas, devido às más vivências que nos precederam. Porém,  há os que trazem no cerne o encontros de almas para engrandecimento mutuo e do conjunto. Sendo que todas as uniões também carregam consigo a possibilidade do crescimento espiritual.

Passado a fase da paixão e com a convivência, começam os conflitos. Geralmente estes ocorrem pelo maciço volume de projeções compartilhadas entre os membros de um grupo, neste caso o familiar. Vemos no nosso parceiro tudo aquilo de negativo que temos e que não reconhecemos, pela inconsciência de nós mesmos. Conferimos a eles,  os mais diferentes atributos, dos quais, nós não identificamos como nossos por desconhece-los.

Queixas mil surgem e na grande maioria das vezes a união encontra o término.

Quando não, a família cresce. Agregando mais membros que receberemos com amor na perspectiva de um ninho feliz. Porém, nem sempre isso ocorre, porque estes entes que visitam nosso lar trazem consigo seus débitos passados, necessitando expiá-los em tal oportunidade. São traços de personalidade ou características e tendências do espirito encarnante, doenças, deficiências e outros.

Na chegadas dos rebentos, em geral, tudo são flores. Mas, como em todo jardim, exige trabalho, cuidado e muita dedicação. Nem todas as pessoas estão preparadas para abrirem suas vidas, ou seja: tempo, dedicação e amor incondicional ao outro. Por mais que acreditemos que sim. Presos no egoísmo e movidos pelos nossos interesses pessoais, nem sempre dispostos a “cuidar do jardim” quotidianamente. Deixamos crescer ervas daninhas que, sem percebermos, tomam espaço indevido, exigindo de nós cuidados redobrados.

As “flores do jardim” despontam cada vez mais belas. Nossos filhos crescem e, enxergamos neles o melhor. Afinal como pais terrenos, vemos nossos filhos como nossas produções, esquecendo que são espíritos eternos, filhos de Deus, assim como nós.

Porém, com o crescimento, aparecem também as dificuldades comuns da vida.

Muitas vezes cometemos o deslize de protegê-los, querendo só o melhor para eles. Poupamos do trabalho, esquecendo que este é a ferramenta básica para o exercício do burilamento do espírito. Evitamos as frustrações ao nosso lado, deixando que as encontre no mundo, onde não serão poupados.

Outras vezes, criamos no nosso lar campo de batalha por exigir deles aquilo que não realizamos. Ora um curso superior ou uma carreira, ora atitudes que mal conseguimos ter. Através das projeções naqueles que vemos como extensões nossas, colocamos toda nosso potencial de crescimento sobre seus ombros. Brigamos, criticamos, magoamos, exigimos. Fazemos com eles tudo que não conseguimos fazer conosco mesmos.

Nestas situações esquecemos as lições do Evangelho que nos falam sobre compreensão,

afabilidade, doçura e temperado pela perseverança. Atitude, esta, das mais necessárias na construção de uma família. Porque, ao perseverarmos, construímos a cada dia em nós, e ajudamos na construção do outro. Tudo se constrói, a paciência, a amorosidade, a união, a fé, a aceitação de nós e do outro. Tudo isso à base do dialogo, construto este que é imprescindível em qualquer relação, conosco ou com o próximo.

Enfim devemos ter presente que a nossa família/jardim é responsabilidade nossa. Se fizermos nossa parte, plantando, carpindo, aguando, cuidando, dedicando tempo e trabalho, terá boa forma, mesmo tendo a presença de partes indesejadas, constituir-se-a num conjunto harmonioso. Sabedores que somos que não existe perfeição neste estágio evolutivo, mas boa vontade e trabalho para o engrandecimento e iluminação do espírito encarnado.

Lembrando que as obsessões, fenômeno natural da vida, só nos acometem de fato se expormos nosso jardim ao mal tempo/comportamento. Assim, cabe a todos contribuirmos para o estabelecimento de uma psicosfera harmoniosa no lar, saturada de pensamentos e sentimentos edificantes, a fim de não comprometer os demais membros da família com as a interferências angustiantes que resultam de nossas chagas ainda não atendidas.

O contato com as dores perpassam todas as fases da existência terrena. O que difere, no entanto, de entregarmo-nos aos padrões revoltosos ou depreciativos que nos surgem sem a busca benfazeja da auto-lapidação. E a constelação familiar, com seus problemas e virtudes, é convite constante para exercitarmos essa busca rumo ao auto-entendimento, logrado sempre em conjunto ao próximo, que também se beneficia disso.

Entrevista sobre Espiritualidade e Envelhecimento

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A VOICE conversou com o Dr. Carlos Eduardo Accioly Durgante.

O entrevistado da VOICE desta semana é o Dr. Carlos Eduardo Accioly Durgante, que na próxima sexta-feira, estará em Santa Rosa, quando palestrará no Centro Cívico, a partir das 20h, sobre espiritualidade e envelhecimento. Casado com Ana Claudia Moro Gonçalves, tem dois filhos: Lucas Chagas Durgante e Bernardo Gonçalves Durgante.

Médico Geriatra, pós-graduado em Geriatria e Gerontologia pelo IGG/PUCRS, especialista em Medicina Interna pela UFSM, especialista em Medicina do Trabalho pela Faculdade de Medicina de Itajubá/MG, escritor e professor de pós-graduação do Curso de Especialização em Saúde e Espiritualidade das Faculdades Monteiro Lobato, articulista da Folha Espírita, trabalhador da Sociedade Espírita Bezerra de Menezes. Autor dos livros: Planejando o Futuro; Fé na Ciência; Velhice: culpada ou inocente? e Luz, Câmera…Ação! A Vida Entra em Cena.

Dr. Durgante afirma que adora sua vida porque ama seus filhos e esposa e tem um prazer imenso em trabalhar nas áreas de envelhecimento e espiritualidade e é muito grato ao Criador por ter como filosofia de vida os princípios morais e os ensinamentos dessa doutrina consoladora que é o Espiritismo.

Qual é a historia do Dr. Carlos?

Tão simples como deve ser a história de todos nós, não podendo faltar nela personagens do bem! Sou natural de Santa Maria e com um vínculo muito afetivo a uma outra “santa”, a Santa Rosa. Aqui passei momentos marcantes da minha infância e adolescência. Meu avô materno foi juiz aqui em Santa Rosa. Tem até uma rua com o nome dele: Pretextato Accioly (Rua Dr. Accioly). Moro em Porto Alegre desde 1991.

Qual sua satisfação de fazer parte da AMERGS?

A Associação médico-espírita do Rio Grande do Sul, que faz parte da AME do Brasil, é uma associação muito atuante na seara espírita e uma via muito importante no estudo da doutrina e sua aplicabilidade na prática médica na busca de uma medicina mais humanizada e mais integral.

Sua opinião sobre eutanásia e distanasia:

Eutanásia: é a prática pela qual se abrevia a vida de uma pessoa com doença incurável de maneira controlada e assistida. Pode ser ativa quando é planejada e negociada entre a pessoa enferma e o profissional. Na passiva, a morte não é decidida deliberadamente e com o passar do tempo e a interrupção dos tratamentos, o paciente vem a falecer. Já Distanásia seria o ato de prolongar a vida de uma pessoa com doença incurável através de meios artificiais, e recursos médicos exagerados e extraordinários, prolongando o sofrimento do paciente. Nós médicos da AME Brasil somos contra qualquer tipo de eutanásia (ativa, passiva, voluntária, suicídio assistido) e não concordamos com a distanásia. Somos favoráveis à Ortotanásia que seria a ocorrência da morte no seu tempo certo sem o seu aceleramento e nem o seu prolongamento exagerado ou desproporcionado. A prática da ortotanásia leva à humanização da prática médica pelos profissionais da área da saúde, e propicia a prática dos cuidados paliativos, bem como a atuação dos cuidadores de uma forma dignificante.

Em um idoso que enfrenta uma doença prolongada, esse sofrimento físico pode contribuir para a evolução espiritual?

Chico Xavier afirmava que “Para o homem da Terra, a saúde pode significar o equilíbrio perfeito dos órgãos materiais; para o plano espiritual, todavia, a saúde é a perfeita harmonia da alma, para a obtenção da qual, muitas vezes, há necessidade da contribuição preciosa das moléstias e deficiências transitórias terrenas”. Se a forma que escolhermos para compreender as enfermidades humanas se assemelhar muito a essa visão espiritual, a doença realizaria um papel estimulador no processo evolutivo do ser humano. Ela ainda teria uma função disciplinadora e reguladora para o reequilíbrio do indivíduo, quando esse tiver sido rompido, e certamente contribuiria para a evolução desse espírito.

A fé faz bem à saúde?

O envolvimento religioso ou espiritual, independentemente do credo, seja ele evangélico, católico, budista, espírita, ou qualquer outro, desde que não gere conflitos éticos e morais a quem o professa, é capaz de promover saúde tanto física, quanto mental. Inúmeros estudos científicos têm revelado que as pessoas em geral, e os idosos em especial, mais espiritualizados ou com um envolvimento religioso mais intenso, têm mais saúde global e uma qualidade de vida mais satisfatória.

Qual a dieta espiritual equilibrada?

Essa “dieta” ou “receita” espiritual equilibrada seria exatamente o que respondi na pergunta anterior. É o que denominamos de Religiosidade Intrínseca, que ocorre com as pessoas que encontram sua motivação na crença que professam. Vivem em harmonia com as orientações e aconselhamentos dela e procuram realizar esforços pessoais para se melhorarem como pessoas, tendo como modelo os ensinamentos morais pregados pelo Cristo.

Envelhecer é mais uma oportunidade de crescimento e de aperfeiçoamento como seres espirituais que somos?

Sem dúvida alguma que sim, a necessidade da vivência da velhice no momento atual da nossa existência no planeta terra, coincide com a também necessidade desse orbe deixar de ser um planeta em que ainda prevalece o sofrimento, a dor, as desgraças, as pragas da era moderna que são o egoísmo, a ganância, as drogas, a delinquência, o terrorismo, entre outros e passar a ser um planeta de regeneração. Não estamos vivendo mais tempo (atualmente a expectativa média de vida no Brasil é de 74 anos), sem uma razão nobre. A oportunidade da vivência da velhice pode nos propiciar mais uma chance para um olhar interior, um olhar para o todo da existência. É um estágio indispensável à Completude da Vida!

Um envelhecimento bem sucedido pode ser preparado? Existiria uma “arte do envelhecer”?

Segundo estudiosos da área de Envelhecimento bem-sucedido, esse termo significa um estado ou uma situação em que a pessoa, além de não apresentar doença, possui baixo risco em desenvolvê-la; apresenta altos índices de funcionalidade física e mental com baixa probabilidade de doença e incapacidades; e uma alta capacidade física funcional e cognitiva e um engajamento ativo na vida. No momento atual em que vivemos, é possível, sim, que muitas pessoas envelheçam com essas características, mas para que isso se processe, há necessidade de um planejamento, de uma “arte de envelhecer” e essa preparação se inicia desde muito cedo na vida, desde antes da meia-idade. Um estudo científico muito interessante publicado em 2010 revelou que: “os comportamentos ou atitudes de vida na meia-idade têm significativa e substancial associação com maior longevidade , com um período maior de vida livre de doenças cardiovasculares, com uma compressão dessas e das doenças crônico-degenerativas para mais próximo do fim da vida, com uma maior qualidade de vida e com mais baixos custos com os cuidados médicos na velhice.” O segredo está em começar a se cuidar bem cedo!

O número de idosos no planeta triplicará nos próximos 50 anos, podendo-se afirmar com segurança que o planeta será dominado pelos anciãos. O mundo esta preparado para isso? Já estamos comprometidos com essa realidade, ou se faz necessária uma revolução no pensamento?

As estimativas de crescimento dessa faixa etária estão aí para que se faça esse alerta. Já existem mais idosos no mundo que crianças de até 5 anos de idade e em algumas décadas eles serão mais numerosos que jovens de até 15 anos. Se o mundo ainda não está preparado, deverá fazê-lo o quanto antes. Essa revolução “não-armada” do pensamento e das mentes humanas, precisa ocorrer em todas as sociedades, especialmente na dos países ditos emergentes, como o Brasil.

Todos temos responsabilidades social para com os velhos de nossa sociedade, amanha haveremos de querer que outros tenham para conosco esse mesmo olhar, e para isso devemos nos preparar. Na sua experiência, o que os jovens estão pensando sobre isso?

O que estão pensando eu ainda não sei, mas devem começar a pensar em suas velhices. Os dados de estudos estatísticos populacionais para países como o nosso revelam que quase 70% dos homens e em torno de 80% da mulheres , desde que em condições razoáveis a boas de saúde e sem um prognóstico de vida reduzido por alguma doença grave, chegarão aos 60 anos facilmente e ainda viverão um bom tempo! Então fica bem claro que a construção de uma velhice bem-sucedida, com poucas limitações físicas e um ajustamento psicológico e espiritual às transformações que surgirão com a velhice, será determinante para que ela venha a ser um período de vida generoso. E essa construção é por toda uma vida.

A velhice está implícita na juventude. Não é só o velho que envelhece. É durante a vida inteira que envelhecemos. Do ponto de visita espiritual, o que o senhor diria sobre isso aos jovens?

Veja um dos conceitos de envelhecimento: é a extensão lógica do fenômeno fisiológico iniciado com o nascimento e o desenvolvimento e que se encerra com a morte. O envelhecimento biológico, psicológico e espiritual é uma construção, uma edificação que se processa ao longo do tempo. Poderá ou não ser bem-sucedido. O jovem de hoje deve ter em mente que estamos vivendo um fenômeno do envelhecimento populacional global, o que significa que esse jovem tem grandes chances de chegar à terceira idade, e a questão crucial é em que condições chegará lá. Se esses que hoje são jovens, adotarem atitudes e comportamentos inadequados e prejudiciais à saúde como um todo, poderão sentenciar de uma forma negativa e em definitivo a sua velhice em todas as suas dimensões: física, psicológica e espiritual.

O que falta para que a sociedade e a família entendam o envelhecimento de seus integrantes como uma evolução e não como um peso?

Essa é uma questão muito delicada, com sérias implicações a respeito do que denominamos de Compromissos Morais. O que falta é o gesto digno de valorização a esse ciclo da vida, isso sim! Divaldo Franco afirma que “o grupo familiar é santuário de renovação coletiva, onde todos os membros se encontram para crescer juntos, reconciliar-se, aprender a servir e ampliar a capacidade de amar. (…) Reunidos novamente, devem se juntar no processo de libertação em que se encontram comprometidos.” O grande e iluminado médium Chico Xavier já dizia que “frequentemente o Espírito renasce no lar que precisa, geralmente no mesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes haja feito”. A Espiritualidade Maior nos reúne novamente, mas muitas vezes ignoramos essa lei divina e deixamos de cumprir com os nossos compromissos morais em dignificar essa fase da existência.

O que não abre mãos na sua vida?

Da convivência familiar e do aprendizado que o Espiritismo tem me proporcionado como filosofia de vida.

Frase preferida:

Luz e Paz! Curta e com um poder imenso. Uma via de mão dupla. Luz e Paz para mim e para os irmãos de caminhada evolutiva.

O meu lugar do mundo é:

Minha casa com minha família, não há outro lugar melhor para se estar!

Uma mensagem para a nossa comunidade:

Nas palavras de Léon Denis: “Sede irmãos, ajudai-vos, sustentai-vos na vossa marcha coletiva. Vosso alvo é mais elevado que o desta vida material e transitória, pois consiste nesse futuro espiritual que deve reunir-vos todos como membros de uma só família, ao abrigo de inquietações, de necessidades e males inumeráveis. Procurai portanto merecê-los por vossos esforços e trabalhos”.

 

 

Movimento pela Paz – O resgate do mito do Herói

paz-com-deusMovimento Sepé Tiarajú (Embasamento Psicológico)
Anahy F. Dias Fonseca

       É bem sabido, pela psicologia, que a criança, para crescer emocional e fisicamente saudável, necessita de cuidados consistentes e confiáveis por parte, num primeiro momento, da mãe e, em seguida, do pai e/ou outras figuras significativas provedoras de cuidados. Quando isto não ocorre, a criança terá dificuldade em invocar uma imagem interna de uma figura materna continente e tranquilizadora. Esta falta criará sentimentos de vazio, tendências depressivas, dependência intensa, medo de aniquilação e raiva. Isto porque ocorre uma grave perturbação no aprendizado da confiança no vínculo amoroso. E esta perturbação levará, também, a um senso de moral empobrecido pela dificuldade que o indivíduo terá, não apenas para assimilar o código moral coletivo, como também para entrar em contato consigo mesmo e descobrir sua própria ética pessoal.
Coletivamente, o que vemos, na atualidade, segundo Joanna de Ângelis (2010), é que os notáveis avanços da ciência e da tecnologia não lograram ainda transformar o ser humano para melhor. Não obstante seja inegável o avanço da civilização, da ética, das estruturas sociais, as questões morais permanecem em plano secundário, quando deveriam ser vividas no cotidiano.
Conforme Roberto (2011), para vários autores como Émile Durkheim, a pós-modernidade marca o declínio da Lei-do-Pai, cujo efeito mais imediato no social é a anomia, onde a perversão se vê livre para se manifestar em diversas formas, como na violência urbana, no terrorismo, nas guerras ideologicamente consideradas “justas”, “limpas” ou “cirúrgicas”. A palavra tem origem grega e vem de a + nomos, donde “a” significa ausência, falta, privação, inexistência; e nomos quer dizer lei, norma. Etimologicamente, portanto, anomia significa falta de lei ou ausência de norma de conduta. A anomia é um estado de falta de objetivos e perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno. Segundo Roberto, Durkheim emprega este termo para mostrar que algo na sociedade não funciona de forma harmônica. Algo desse corpo está funcionando de forma patológica ou “anomicamente”. Já Zygmunt Bauman, segundo ele, diz que tem havido um “derretimento” das tradições, tais como as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigações. Para Bauman, “ser” para a realidade atual significa, hoje em dia, ser incapaz de parar e ainda menos de ficar parado. Na nossa sociedade de consumo desenfreado, movemo-nos e continuaremos a nos mover pela impossibilidade de atingir a satisfação. Isso acaba sendo um fator que impede qualquer tipo de esperança e busca de objetivo. O resultado é um individualismo extremado. Ser consumista e individualista é o estilo de vida dos tempos que ele chama de “líquidos”. Solidariedade e ideia de comunidade se perdem e o conceito que permeia os tempos líquidos é o da insegurança existencial, num tempo de indefinições e incertezas. Portanto, nossa cultura se encontra “no limite” predominando a dificuldade nos vínculos amorosos, no desenvolvimento de empatia, de consideração pelo outro e de consciência de si mesmo. Consequentemente, nos encontramos, dia a dia, mais frágeis e ficamos à mercê de nossos impulsos e fantasias e, muitas vezes, sendo comandados por nossos aspectos sombrios. Nosso paraíso de inconsequência, negação e satisfação de desejos tornou-se, também, nosso inferno pessoal e coletivo que dificulta nosso crescimento rumo à maturidade psicológica e espiritual.
Por tudo isso, a descoberta do herói em cada um de nós é de suma importância. Resgatar o “mito do herói” é fundamental no mundo contemporâneo. Segundo Pearson (1991), trata-se de um mito imemorial que nos une a pessoas de todas as épocas e lugares. Ele fala em saltar intrepidamente através dos limites do conhecido para enfrentar o desconhecido e ter confiança de que, quando chegar o momento, teremos os recursos necessários para enfrentar nossas dificuldades, nossos dragões, e descobrir nossos tesouros retornando para transformar o reino. Ele também fala em aprendermos a ser verdadeiros com nós mesmos e a viver em harmonia com os outros membros da nossa comunidade. Segundo a autora, as histórias a respeito de heróis são profundas e eternas. Elas ligam os nossos próprios anseios, desgostos e paixões às experiências dos que vieram antes de nós, de modo que podemos aprender algo a respeito da essência do significado de ser humano, e também nos ensinam de que forma estamos ligados aos grandes ciclos dos mundos natural e espiritual. Embora os mitos que podem dar significado a nossas vidas sejam profundamente primitivos e arquetípicos, às vezes nos inspirando terror, eles também têm a capacidade de libertar-nos de modos de vida falsos e fazer com que passemos a ter uma vida de verdade. O encontro da nossa ligação com esses padrões eternos proporciona-nos um senso de significado e importância até mesmo nos nossos momentos mais penosos e alienados, recuperando dessa maneira a dignidade da vida.
Nosso mundo apresenta muitos dos sintomas clássicos de um reino devastado: fome, danos ao ambiente natural, dificuldades econômicas, grandes injustiças, desespero e alienação pessoais e a ameaça de guerra e aniquilamento. Nossos “reinos” refletem estados de nossa alma coletiva e não apenas a de nossos líderes. Esta é uma época da história humana em que há grande necessidade de heroísmo. Tal como os heróis de outrora, ao nos tornarmos “heróis”, nós podemos contribuir para restaurar a vida, a saúde e a
fecundidade do reino. É como se o mundo fosse um gigantesco quebra-cabeça e cada um de nós que empreendesse uma jornada retornasse com um de seus pedaços. Coletivamente, à medida que todos vão dando sua contribuição, o reino é transformado.
Para Incontri (2010), o primeiro caminho para esse despertar, como de resto todas as virtudes, cujo estofo são sempre sentimentos, é o contágio de alma para alma. Um educador (pais, professores e outros adultos cuidadores) com profundos e autênticos sentimentos de fraternidade, compaixão, justiça e caridade, deixará transbordar de si sua espiritualidade, seus valores. Trata-se de despertar sentimentos e proporcionar estímulos à ação concreta. Portanto, a educação de pais, professores e crianças é a chave do progresso moral que tanto buscamos para transformar nossa realidade atual.

PROPOSTA PARA REFLEXÃO:

Quem são nossos heróis?
– Por quais causas lutaríamos?
– Quais são nossos valores? Quais foram os valores dos nossos ancestrais?
– Que valor tem a paz para mim?

Bibliografia
– ÂNGELIS, Joanna de (Espírito); FRANCO, Divaldo P.(médium). Triunfo Pessoal. 6.ed. Salvador: Livr. Espírita Alvorada Editora, 2010.
– INCONTRI, Dora (org.). Educação e Espiritualidade – Interfaces e Perspectivas. Bragança Paulista: Editora Comenius, 2010.
– PEARSON, Carol S. O Despertar do Herói Interior – a Presença dos Doze Arquétipos nos Processos de Autodescoberta e de Transformação do Mundo. São Paulo: Editora Pensamento, 1995.
– ROBERTO, Gelson L. In: Refletindo a Alma. Cap. III. Salvador: Livr. Espírita Alvorada Editora, 2011.